Ovos de Touro

27/11/2004

A cidade que lembrava Arles (Emerson Wiskow)

Cheguei num dia muito claro. Havia luminosidade por todos os lados, uma luz prateada que se refletia nas vidraças das lojas, nas janelas e nos automóveis. Um belo dia de primavera. Tive a sensação de estar em Arles e que a qualquer momento encontraria Van Gogh andando pelas calçadas com alguma tela debaixo do braço. Mas a verdade é que a cidade não era Arles e não que havia mais Van Goghs. Então saí andando pelo centro da cidade a procura de um lugar para me alojar. Ainda não sabia muito bem quanto tempo eu ficaria na cidade. Meus olhos ardiam sob aquela luminosidade, às vezes, dependendo para onde eu olhava eles lacrimejavam como se chorassem pela perda de um grande amor. Bom, eu já havia perdido alguns e muitas vezes não conseguira chorar. Talvez fosse uma espécie de efeito retardado. Continuei andando até encontrar uma pequena pensão muito antiga, localizada numa rua também muito antiga, calçada com pedras que dizem serem do tempo de D. Pedro II. Parece que eu estava rodeado por história. A luz da cidade remetia a Van Gogh, as pedras a D. Pedro II. O quarto não lembrava nada. Era um desses simples moquifos baratos.

Abri a janela e deixei entrar no quarto aquela luz maravilhosa, os raios de sol fizeram um lastro de luz e poeira como se fossem espectros navegando, flutuando. Eu ainda não tinha desistido de escrever. Quer dizer, ainda estava tentando escrever alguma coisa e pretendia escrever alguns contos por ali. No resto era vagabundar no melhor estilo Henry Miller. Depois de abrir a janela resolvi me jogar na cama e descansar um pouco. Eu estava quebrado, com o corpo moído por causa da viagem de ônibus. Acabei adormecendo como uma personagem de conto de fadas. Não com lindos cabelos loiros e com o corpo cheirando a suaves flores do campo, mas fedendo a suor e com cabelos desgrenhados. Além de estar com o rabo quase assado por causa do calor. No meio da tarde, por volta das quatro horas acordei com o som alto que vinha do quarto ao lado. Alguém estava com a corda toda ouvindo Bruno e Marrone. Reconheci logo, claro, muitas vezes eu ouvira aquela música nos inferninhos que eu frequentara. Eu era um mestre nisso. Um mestre da chinelagem. O pretenso escritor que passava noites ouvindo músicas de corno, fumando e bebendo cerveja rodeado por putas. Era uma beleza.

Como não conseguia dormir mais por causa da música, resolvi ir tomar um banho. O banheiro era uma merda. Um pequeno banheiro coletivo com azulejos azuis e verdes. Para minha sorte não estava ocupado. A música continuava tocando alto e ninguém parecia se importar. Tomei um bom banho, refresquei o corpo e quando sai do banheiro tive uma visão do paraíso. Ah, o mais certo é dizer que tive a visão de alguém vindo do paraíso. No quarto ao lado do meu, de onde saia a música surgiu a figura de uma mulher estonteante enrolada numa toalha com estampas de barquinhos. Ela veio em minha direção, quer dizer, ela veio em direção ao banheiro, onde eu estava. Parecia alegre, cabelos pretos e com um quadril denunciando ser uma deusa da fertilidade. Uma máquina. Uma máquina de sexo capaz de destruir você no primeiro assalto. Era como entrar no ringue com Marciano, o boxeador. Você não teria chance. Mas resolvi arriscar. Não tinha como resistir, tinha um rosto de menina, os olhos eram vivos, cheios de vida e destruição. Ela disse algo e sorriu. O que ela disse? "Oi", foi isso. Voltei para o quarto e fiquei esperando. O quê? Não sei ao certo, fiquei apenas esperando. Não aconteceu nada, continuei ouvindo a música que vinha do quarto dela.

Eu estava tentando escrever quando bateram na porta. Na minha porta. Abri e surgiu a morena do corredor, do quarto ao lado, do volume máximo. Estava arrumada, vestia uma calça de brim colada ao corpo e uma blusa rosa transparente. O rosto maquiado, boca e olhos. Tudo equilibrando-se sobre uma sandália de salto alto. Numa mão tinha um cigarro com a ponta ardendo, noutra uma sacola volumosa. Sorriu.

- Oi - disse ela.

- Oi.

- Você é o novo morador, não é? - perguntou a morena.

- Sou.

- Ah, legal. Posso entrar?

- Claro.

A morena sorriu maliciosamente e correu os olhos em direção ao seu corpo. Acompanhei seus olhos. Um belo caminho. Era um sonho. Estava difícil de acreditar. Parecia uma armadilha, geralmente é. Já estava esperando entrar meia dúzia de brutamontes para me assaltar e me cagar a pau.

Quando a morena deitou-se na cama foi como se os anjos tivessem decido do céu. Teve uma performase. Claro, era um anjo malicioso que pousou sobre aquela velha cama de lençóis surrados. Ela se pôs de quatro e esticou o corpo como um felino espreguiçando-se. Gemeu como se sentisse um prazer sexual. Os músculos alongaram-se lentamente, suas costelas marcaram o seu corpo.

- Qual o seu nome? - perguntou a morena com uma voz morna.

- Emerson, e o seu?

- Márcia.

- Márcia... Márcia...

- E então, quer se divertir um pouco? - disse ela deitada de bruços e olhando-me sobre o ombro.

- Você é uma tentação. Nunca vi uma mulher com um corpo tão bonito - disse eu.

- Por cinqüenta reais ele é seu durante a noite toda. Vou deixar você louco.

- Já estou.

- E então, quer?

- Quarenta - retruquei.

- Quarenta por uma noite? Geralmente cobro bem mais que cinqüenta.

- Você é um sonho, mas é só o que eu tenho.

- Está bem! Gostei de você - disse ela abrindo as pernas.

Era uma visão maravilhosa. Uma bela mulher brejeira, de corpo perfeito, perdida naquela cidadezinha que tinha a luz de Van Gogh e uma rua calçada com pedras do tempo de Dom Pedro II esperando-me na cama. Logo tive uma ereção. Uma grande e boa ereção, então resolvi me exibir um pouco. Abri minha calça e botei o pau para fora. Massageei ele exibindo sua bela cabeça roxa.

- Você tem um pau bonito - disse ela. Márcia tirou a calça, depois a calcinha. Assim, uma de cada vez, claro, e continuou deitada de bruços. Também se exibia. Márcia abriu as pernas e mostrou sua buceta, carnuda, bela, suculenta. Não resisti e enfiei a cara no meio do seu rabo. Era o melhor rabo do mundo. Enfiei-lhe a língua no cú, chupei sua buceta. Tudo ficou molhado e babado. Continuei com as cuspidas e lambidas no cú e na buceta, gosto muito disso.

Pela manhã, quando a luz de Van Gogh surgia novamente eu já havia gozado seis vezes. Durante a semana que passei na cidade não escrevi nada. Todas as noites Márcia vinha me visitar sem cobrar nada. Durante a tarde Márcia trabalhava num cabaré enquanto eu ficava dormindo ou lendo. Às vezes eu dava umas voltas pela cidade, andava sobre o calçamento de pedras do tempo de D. Pedro e era banhado pela luminosidade.

Foi uma grande semana, quando fui embora olhei Márcia pela última vez através da janela do ônibus. Uma linda luz iluminava seu corpo.


Escrito por Emerson Wiskow às 14h53
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Escrito por Emerson Wiskow às 14h50
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A mulher mais bunduda da cidade (Emerson Wiskow)

Era a mulher mais bunduda da cidade. Vivi lembrava um desenho de Serpieri ou Crumb. Tinha muita carne, uma coisa inacreditável e louca. Acho que não havia homem que olhasse para Vivi e não desejasse comê-la. Estava marcada. Vivi usava calças de brim sempre colada ao corpo, estourando para os lados, para trás. Vista de perfil era torta, com aquele bundão maravilhoso nos enchendo de pensamentos pornográficos.

Descobri Vivi ao vê-la entrar num inferninho num dia de sol muito forte, um dia claro e cheio de pessoas andando nas ruas. Eu a vi como um relâmpago, como se eu tivesse vagando perdido no meio do oceano e de repente surgisse um pedaço de terra. Claro, meus olhos saltaram. Era a Miss bunda, a representante máxima de algum planeta habitado por mulheres com bundas descomunais. Não parecia ser real. Estava marcada para ser a mulher-bunda. Não tinha para mais ninguém. Vivi era matadora.

Vivi entrou no puteiro e eu entrei logo após, lá fora o sol ardia sobre as paredes cinzas e velhas dos velhos prédios daquela rua do centro de Porto Alegre. Uma pequena placa branca indicava o ponto, a porta para o mundo escondido numa rua da qual as pessoas passavam suadas e alheias ao que estava ali tão perto delas.

Subi uma estreita escada e então surgiu uma porta fechada. Entrei e todos olharam para mim. Todos, os putanheiros, as putas e o cara do balcão. Os putanheiros eram apenas dois caras que bebiam enquanto riam e amassavam as mulheres que estavam em seus colos. Uma delas era Vivi, a mulher bunduda. O lugar estava praticamente vazio e eu me senti como se tivesse invadido uma festa particular. Não era novidade para mim. Eu estava acostumado com os buracos de Porto Alegre. Sentei e acendi um cigarro tranqüilamente e esperei que alguém viesse me atender. Então a mulher com a maior bunda da cidade levantou-se do colo do seu acompanhante e veio me atender.

- Quer beber alguma coisa? - perguntou ela, a Miss bunda.

- Uma cerveja - respondi equilibrando o cigarro entre os dedos.

Ela girou sobre os calcanhares e foi buscar a cerveja, mirei sua bunda gigantesca como se fosse um alvo a acertar. A cintura fina, o grande quadril, tudo movendo-se maravilhosamente enquanto ela se afastava. Poderia ser o arrebatamento final, o grande gozo do universo, a maior foda do mundo ou a prova final da falta de sentido do homem. Eu não estava nem aí. Sou um animal sexual. A super bunduda voltou segurando o gargalo da cerveja como se fosse um pescoço de galinha morta e a colocou sobre a mesa. Depois debruçou-se sobre a pequena mesa com toalha vermelha e quase colou seu rosto no meu. Tinha longos cabelos castanhos e encaracolados, lábios grossos e grandes dentes que se projetavam para frente. Eram dentes de cavalo.

- Se quiser mais alguma coisa é só me chamar - disse ela carregada de entrelinhas.

Fiquei bebendo e examinando o lugar, tudo envolto na penumbra dos puteiros, dos porões escondidos sob a cidade. Eu gostava de me enfiar nesses lugares, fuçar na merda, na sujeira, nos amores traiçoeiros dessas mulheres, na melancolia das sombras. Era jogo perdido.

A mulher-bunda soltava gargalhadas e bebia, a mesa estava animada. Não a minha, a deles. O cara que estava com ela estava tonto, bêbado, louco, fodido e alegre. A mesa cobria-se de garrafas de cervejas. A mulher mais bunduda da cidade colocou um peito para fora, mostrou e escondeu. Ria. Ela levantou-se, empinou o rabo para trás e buscou uma dose. Bebi mais um gole de cerveja e traguei o cigarro. Eu pensava em me tornar um escritor. Talvez eu escrevesse algo sobre ela, sobre sua bunda gigantesca. Sobre a mulher mais bunduda da cidade. Sobre a mulher que parecia ter saído de uma história em quadrinhos. Eu queria desenhá-la, na verdade eu queria mesmo era comê-la, enfiar a cara no meio daqueles dois montes de carne e lamber sua buceta. Tinha vontade de ver sua bunda gigantesca arreganhada para mim. Sou podre. Nunca imagino sexo como uma coisa suave e doce. Prefiro cuspe, chupadas, lambidas, quero meter em todos os orifícios da mulher. Buceta, cu, boca. Quero vê-las deitadas de bruços, com as pernas abertas, quero vê-las abrirem-se, quero vê-las enfiando seus próprios dedos em suas bucetas e quero que deixem que eu goze em suas bocas. Sou pornográfico. Acho que não vou para o céu e serei abençoado por algumas mulheres, amaldiçoado por outras.

A festa na mesa ao lado continuava animada. A miss rabo e sua colega brincavam e bebiam, os dois caras continuavam com a farra. Continuei bebendo e fumando. Foi quando a bunduda pediu uma bala de menta e disse que duvidava que o cara conseguisse tirá-la com a boca se ela a enfiasse no cu. A grande comédia humana. Lá fora as pessoas transitavam alheias sob o sol escaldante. O cara aceitou o desafio e então ela baixou a calça e a minúscula calcinha. Um estrondo da natureza. Era firme e linda, gigantesca. Aquela mulher de bunda gigantesca, com a calcinha esticada entre as pernas empinou sua bunda para trás e enfiou a metade da bala de menta no cu. Depois colocou sua gigantesca bunda no rosto do cara e ele acocorou-se diante do maior traseiro da cidade e meteu-se entre ele. Ela olhava para trás e sorria, todos observavam atentos a cena enquanto riam.

- Ele conseguiu! Ele conseguiu! - gritou ela rindo. O cara levantou-se sorrindo com a bala entre os dentes e ergueu os braços como um vencedor e comeu a bala. Logo após bebeu um bom gole enquanto a mulher mais bunduda da cidade levantava a calcinha. Era fabulosa e vulgar.

Terminei de beber minha cerveja e pedi a conta.

- Já vai? - perguntou ela.

- Já. Tenho que ir.

- Que pena! Apareça, meu nome é Vivi. E o seu?...

Respondi, paguei a conta e parti deixando para trás a mulher mais bunduda da cidade.


Escrito por Emerson Wiskow às 14h47
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