A cabeça sobre a velha passarela (Emerson Wiskow)
Quando a cabeça apareceu sobre a velha passarela de madeira em Canoas, todos na cidade só falavam dela. Foi estranho e assustador quando Daniel encontrou uma cabeça decapitada numa madrugada gélida, onde os postes com suas lâmpadas lançavam luzes amarelas e mortas. Uma leve neblina pairava no ar. Daniel estava cansado e desejava apenas chegar em sua casa o mais rápido possível. Não era uma boa noite e as coisas ficaram ainda pior.
Daniel aproximou-se da cabeça sem ter certeza do que era realmente. Primeiro pensou que fosse uma pedra ou algum caixote. Aproximando-se mais um pouco, lentamente, com passos curtos, pensou que fosse uma cabeça de boneco. Só quando chegou a distância de dois passos que Daniel percebeu que realmente era uma grotesca e feia cabeça humana. Uma cabeça de um homem, com os olhos esbugalhados como se estivesse fitando o vazio numa expressão de horror. Estava ali, a dois passos de Daniel, sobre o piso da velha passarela de madeira no centro da cidade uma cabeça que fora decepada do corpo. E era real, terrível e assustadoramente real como se ele houvesse voltado a Idade Média onde cabeças eram cortadas com a naturalidade de quem como uma bergamota. Daniel sentiu-se apavorado e um arrepio percorreu-lhe a espinha, o coração pulsou como uma bomba prestes a estourar. A cabeça encontrada por Daniel equilibrava-se sobre o pescoço como se ainda tivesse vida, como se a qualquer momento fosse soltar um grito ou falar algo. Havia sangue ressecado em torno do pescoço servino como uma espécie de cola, grudando à cabeça ao soalho da passarela. A neblina continuava e Daniel respirava partículas de umidade, lá embaixo os postes vomitavam suas luzes amareladas que davam a impressão de serem espectros perdidos, paralisados, aprisionados naquela bruma misteriosa. Daniel encorajou-se com a sua curiosidade e acocorou-se em frente à cabeça. Ficou observando aquele pequeno horror diante de si. Observou os cabelos pretos e úmidos da cabeça, a pele e carne do pescoço picotada. Depois tentou adivinhar qual teria sido o último pensamento que passara naquela cabeça arrancada do corpo. Daniel estava tão absorvido e chocado pela experiência brutal, que só conseguiu sair daquela espécie de transe quando o motorista de um automóvel passou velozmente na via expressa, sob a passarela, e deu grande buzinada. O som foi tão alto e fez com que Daniel desse um salto para trás, caindo de bunda sobre à madeira úmida da passarela. O coração pareceu sair-lhe pela boca. A cabeça pálida e horrorosa desequilibrou-se e tombou para o lado, deixando à mostra o interior do pescoço. Daniel levantou-se apavorado e deu um longo passo sobre à cabeça e pôs-se a correr como se todo o horror tivesse tomado conta do seu corpo. Daniel desceu as escadas da passarela correndo, deslizando a mão rapidamente no corrimão de madeira, e sem olhar para trás foi para casa.
A cabeça ainda estaria lá?, perguntou-se Daniel já em casa. A imagem não lhe saía da cabeça. Os olhos esbugalhados, a pele pálida, a expressão de horror e a sensação de quê a cabeça decepada do corpo quisesse gritar ou dizer alguma coisa. Daniel tirou o casaco e jogou-se sobre a cama pesadamente. Era uma loucura aquilo tudo, um pesadelo maçante, um terror.
Durante muito tempo a tal cabeça decepada foi assunto na cidade. Nunca encontraram o corpo, nunca encontraram quem a decapitara, nunca souberam o motivo e Daniel não esqueceu aqueles olhos esbugalhados.
Escrito por Emerson Wiskow às 22h04
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