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| 13/06/2004 |
O casal do puteiro
Enquanto ela foi ao banheiro aproveitei para contar o dinheiro. Magali voltou sorrindo, algumas mulheres ganham você pelo sorriso. Magali tinha o sorriso e um belo rosto. Não resisti. Cabelos curtos e pretos, do tipo esguia, pele clara e um belo rosto. Bom, isto eu já disse. Ela sorriu para mim e fechou a porta do pequeno quarto.
- São trinta reais. - cobrou-me ela, parada em minha frente. Retirei o dinheiro do bolso, fingi que contava-o pela primeira vez e então entreguei-o. Magali pegou os “trinta” e saiu novamente do quarto.
- Já volto, não fuja daí! - disse ela com um leve sorriso. O que um sorriso não faz. Fiquei encantado com a garota. Esperei novamente, eu sempre esperava. Enquanto ela não voltava eu olhava para as paredes daquele quartinho sujo, de ar pesado. Olhei para o colchão jogado no chão, o lençol encardido e desarrumado. “Bom, esta é a minha vida”, pensei.
Magali voltou e desta vez foi eu quem sorriu. É sempre bom ver uma mulher voltar. Olhei para o seu pequeno piercing cravado no nariz, uma pedrinha brilhante. Olhei para o seu corpo esguio e tive vontade de beijá-la.
- Eu queria surfar em Bali. - disse Magali enquanto baixava a calcinha. Eu a observava em silêncio, achando bela e suave aquela jovem prostituta que sonhava surfar em Bali.
O quarto deveria ter uns 2 por 2 , talvez menos, sempre fui mal em relação a medidas, mas o fato é que o quarto era realmente muito pequeno. Tinha um colchão de solteiro jogado ao chão, um cabide para pendurar as roupas, um pequeno cesto de lixo e nós dois. Uma luz muito fraca iluminava o quartinho, o que contribuía ainda mais para deixá-lo com um aspecto de decadência. Aquilo era a decadência, amenizada apenas pelo sorriso de Magali. Lá fora a noite arrastava-se morna e abafada, as águas do Guaíba pareciam descansar em leves movimentos. Os navios ancorados, alguns gigantes, adormeciam nas margens do rio. Antes, porém, os trilhos do metrô. De repente o som da música e o murmúrio que vinha de fora do quarto era cortado pelo som do metrô que atravessava a cidade. Aquela enorme serpente iluminada passava veloz, via-se as pessoas dentro dela, como fantasmas que corriam na noite abafada. O inferninho, as putas, os amores perdidos, os trilhos do metrô, o metrô, o porto, os velhos navios e o Guaíba. Porto Alegre respirava em seus vários mundos, enquanto Magali sorria para mim dentro do quartinho com ar rançoso. De dentro do pequeno quarto ouvia-se o som abafado da música que vinha do salão onde outros homens bebiam e suavam rodeados por putas. Magali pendurou a sua calcinha no cabide ao lado do colchão em silêncio. Nos mexíamos com cuidado para não bater um no outro enquanto tirávamos nossas roupas no pequeno espaço que tinha ao lado do colchão. Magali tinha apenas dezoito anos e queria surfar em Bali. Enquanto não conseguia vendia o seu corpo em um inferninho de quinta categoria em Porto Alegre.
E eu pagava.
Eu pagava para tê-la, assim como os outros homens também pagavam.
Eu pagava para comê-la naquele quartinho imundo, sobre o pequeno colchão jogado no chão. Sobre aquele lençol gasto, usado, nós transávamos enquanto eu esquecia do mundo lá fora.
- Estes colchões são um nojo, nem cama tem neste lugar. - disse ela constrangida, como que se desculpando. Esbocei um sorriso, o quarto cheirava a renúncia.
Fui para cima do colchão e abracei Magali Abracei-a e senti o seu cheiro de perfume barato. Uma mistura de tristeza e ternura tomou conta de mim enquanto a abraçava. Magali queria surfar em Bali e eu queria tê-la. Beijei-lhe a boca, senti os seus lábios junto aos meus, senti a sua língua úmida dentro da minha boca. Esfregávamos nossas línguas como que se quiséssemos engolir um ao outro, engolir a tristeza um do outro. Magali nunca vai surfar em Bali, eu sei disto. Ao lado, em um outro quartinho começamos a ouvir uma mulher gemendo alto. Ouvimos a mulher gemer e sorrimos um para o outro.
- Que mulher fiasquenta. - disse Magali sorrindo enquanto nos abraçávamos e nos lambíamos.
As mulheres gemiam alto naqueles minúsculos quartos, gemiam alto e quase nunca gozavam. Ouvíamos também os homens bufando, gemendo, e eles gozavam, gozavam quase sempre. Magali deitou, ajeitei-me entre suas pernas e meti. Então começamos a nos beijar e a arfar. Grudamos um no outro, braços, pernas e sexos, movimentando-nos freneticamente, como loucos, como desgraçados. Chupei-lhe as pequenas tetas moles. Enfiei aqueles pequenos mamilos na boca, no meio daquela penumbra abafada. De repente ouvimos um grito no quarto ao lado. A mulher gritou indignada.
“ - Você vomitou em mim!” “Por quê você saiu antes?” “Que nojo, olha só! Que nojo!”
- Desculpe, não consegui segurar. Bebi demais. - disse o cara enrolando a voz.
- Ah, me dá o papel higiênico. Que merda, olha só a cama. Por que não saiu antes para vomitar? Tinha que fazer isto enquanto estava trepando? Você sujou o meu cabelo!
- Ahh... acho que vou vomitar mais. - disse o cara. Então ouvimos o som novamente, o cara parecia estar botando as tripas para fora.
Enquanto ouvíamos aquilo ficamos parados, apenas ouvindo e sorrindo um para o outro. Meu pau continuava dentro de Magali, sentindo a coisa viscosa e úmida.
- O cara estava mal. - eu disse, voltando a fazer leves movimentos dentro de Magali.
- Por que esses caras não vêm para o quarto antes de beberem tanto? Que nojo! Ela deve ter ficado louca. - disse Magali mexendo-se suavemente. Voltamos a fazer a coisa até que gozei. Foi uma ótima transa, suspirei satisfeito, depois tirei o pau de dentro da Magali. Retirei o preservativo e joguei-o no cesto de lixo.
- Quer tomar um banho? - perguntou Magali.
- Não - respondi - vou tomar em casa.
- Espere um pouco, vou tomar um banho e já volto - disse Magali enrolando-se em uma toalha. Magali abriu a porta e saiu. Coloquei a roupa e acendi um cigarro enquanto esperava por ela. Alguém bateu na porta e perguntou se o quarto estava ocupado. Minutos depois Magali voltou, sorriu para mim e desenrolou-se da toalha. Colocou a calcinha e começou a arrumar o lençol encardido sobre a cama. Ajudei-a a esticar o lençol, como um casal. Um casal perdido dentro de um pequeno puteiro fedorento. Um casal que arrumava-se para ir a um restaurante jantar. Estendemos o lençol e Magali vestiu a roupa. Depois saímos. O casal. Passamos pelo corredor estreito com caixas de cervejas empilhadas ao fundo. Uma mulher jovem pintava a boca em frente a um grande espelho colado na parede. Outra passava vestida apenas por uma minúscula calcinha, enquanto uma morena carnuda entrava com um cliente no quarto. No salão os homens ainda bebiam sobre aquela luz morna, no meio do ar rançoso de cheiros. Magali levou-me para uma mesa, pedi uma cerveja e ficamos bebendo, como um simples casal em um bar qualquer.
Escrito por Emerson Wiskow às 22h08
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O mongo
Quase não conseguíamos enxergar naquela noite gelada. Passavam-se das quatro e meia da madrugada e um espesso e úmido nevoeiro cobria a cidade enquanto esperávamos o caminhão chegar. Jonas fungava a todo momento, praguejava e esfregava as mão. O grande nariz vermelho parecia que iria explodir. Ao lado o mongo aguardava sentado sobre o fio da calçada e seu olhar perdia-se no meio do nevoeiro. O mongo estava mais estranho que de costume. Tinha quase um e noventa de altura, pesava 130 kilos e era meio mongolóide. A cabeça careca com os cabelos raspados a máquina lembrava um ovo.
O caminhão surgiu entre o nevoeiro, primeiro vimos aqueles dois olhinhos embaçados como se fossem de um monstro mitológico. O mongo olhou em direção aos faróis e levantou-se lentamente com um gemido que misturou-se ao ronco do caminhão.
Subimos os três na carroçeria do caminhão e partimos. O mongo continuava calado. Não soltou uma palavra, os olhos sempre parados, vidrados, fitando o nada. Parecia estar em transe.
- Ei, mongo! O que você tem hoje? - perguntou Jonas acocorado num canto, sacolejando com o movimento do velho caminhão. O mongo continuou calado, sem responder, como se Jonas não tivesse falado com ele.
- Ei, deixe ele em paz - eu disse.
- Ei mongo! Ei mongo! O que aconteceu com a boneca? - continuou Jonas provocando.
- Deixe o cara, seu idiota! - retruquei.
Jonas fungou, passou o dorso da mão no seu grande nariz vermelho e continuou:
- Ei mongo! Ei mongo! ELE não apareceu ontem?
Algum tempo depois chegamos ao local. Durante a manhã inteira desmontamos e carregamos coisas e durante todo o tempo Jonas continuo a provocar o mongo. Mongo trabalhou sem dizer uma só palavra. Era como se Jonas ou qualquer um de nós não existíssemos. Ao meio-dia paramos para almoçar. Fomos para um pequeno bar e enquanto comíamos o televisor estava ligado, nele o apresentador falava sobre o estranho assassinato de uma tal Rose Maria dos Santos, encontrada morta no quarto da sua casa com a traquéia quebrada. Estrangulada.
Mongo levantou-se e foi para rua. Andou lentamente, os olhos perdidos. Na sua camisa um crachá opaco tinha o seu nome estampado: Rodrigues dos Santos.
Todos o chamavam simplesmente de mongo.
Escrito por Emerson Wiskow às 22h00
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O primeiro milagre parte II
dissecando uma mulher que rebolava na frente deles. Levantava a saia, mostrava o rabo, as tetas, tudo. Passei por eles, depois mais putas, mais homens, até finalmente chegar ao meu lugar. O cara ainda estava lá, olhou para mim e sorriu. Paz e serenidade. Sentei e bebi um gole.
Patrícia veio sorrindo. Eu sorri, ela sentou-se no meu colo e deu-me um carinhoso abraço apertado. Beijou-me a boca levemente.
- Como estão as coisas? - perguntei.
- Tudo bem - respondeu ela sorrindo.
O cara ao meu lado estava olhando para nós dois, sempre suave. Apresentei-lhe Patrícia. Ele sorriu, mágico.
- Vou cedo hoje - ela disse.
- Pegue mais uma cerveja para nós - pedi para Patrícia.
- Está certo! Enquanto você termina de beber eu troco de roupa, pego as minhas coisas e nós vamos embora.
Patrícia trouxe a cerveja e foi buscar as suas coisas. Fiquei conversando com o cara ao meu lado. Logo após Patrícia voltou e nos despedimos do cara. Foi assim que eu o conheci, várias outras vezes nos encontramos naquele inferninho. Ele sempre lá, sentado e observando tudo calmamente. Acabamos nos tornando amigos e ele começou a frenqüentar o meu apartamento. Numa bela noite ele me revelou: "Sou Jesus Cristo". Assim, seco. É claro que não acreditei. Então ele levantou-se suavemente, pediu que eu buscasse um copo d'água. Eu busquei. Ele pegou o copo de minhas mãos, passou a mão sobre ele e água mudou de cor. Parecia um líquido mais grosso.
- Como você fez isso? - perguntei espantado.
- Beba - ele pediu. Era vinho. Ele sorriu. Um arrepio percorreu o meu corpo, eu não sabia o que fazer.
- Não pode ser! Qual é o truque? - Eu estava cada vez mais confuso, ele parecia sereno.
Não houve luzes, não vi anjos descendo do céu. Apenas uma sensação de paz. Os meus olhos começaram a encher de lágrimas. Ele aproximou-se calmo, passou a mão sobre minha cabeça e eu comecei a chorar. Chorei como nunca havia chorado antes. Um choro compulsivo, eu soluçava, chorava e chorava. Acho que botei tudo para fora, toda merda acumulada durante anos. Chorei como uma criança abandonada e desesperada. Ele abraçou-me com ternura e aos poucos fui parando de chorar. Senti o meu corpo leve, suspirei profundamente.
- Como pode? - perguntei com a voz trêmula. Jesus sorriu - Encontrei você lá, naquele inferninho vagabundo, entre putas e todo o tipo de gente perdida - perguntei.
- E porque eu não haveria de estar lá? Por causa do pecado, da luxúria, da culpa, da doença? Então o PAI não estaria entre os homens. São como anjos perdidos, anjos com asas cortadas, apenas sangrando - Agora tenho que ir. Jesus disse.
- Não! - pedi.
- Não se preocupe, estarei por aí. Jesus caminhou em direção à porta. Eu fiquei imóvel e leve, apenas olhando para ele. A porta abriu-se e ele olhou para trás, para mim.
- Nos veremos? - balbuciei com os olhos cheios de lágrimas e o coração leve.
- É claro - disse Jesus.
Eu sorri.
Escrito por Emerson Wiskow às 21h49
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O primeiro milagre parte I
Ele estava ali, sentado em minha frente. Barbudo, olhos lindos e vivos. Sereno. Sorriu e bebeu mais um gole de vinho. Tinto, é claro. Tínhamos isto em comum, nós dois gostávamos de vinho. Ele estava morando em Porto Alegre há quatro anos. Pouquíssimas pessoas sabiam disto.
Lembro-me da primeira vez em que o vi, foi numa noite de sexta-feira, fazia calor e o cabaré estava cheio. Entrei, corri os olhos pelo ambiente a fim de ver quem estava lá. Muitas caras conhecidas, principalmente entre as garotas. Entre as mulheres que trabalhavam naquele inferninho tinha uma que eu gostava muito. Era por causa dela que eu estava ali aquela noite. Eu queria vê-la.
Uma vez por semana eu passava naquele cabaré, geralmente nas sextas-feiras. O que não era muito bom, porque era justo nas sextas que havia mais movimento na casa. E sendo assim, muitas vezes eu tinha que ficar esperando Patrícia por um bom tempo. Quase sempre ela estava acompanhada por algum cliente. Business, money, dinheiro, capim, é isto aí meu amigo. Patrícia era uma garota de programa, uma prostituta, e eu acabei me envolvendo com ela. Com poucas mulheres eu me sentia tão bem, tão feliz, como quando estava na companhia dela. A primeira vez em que eu a vi, Patrícia estava dançando com um cara, cabaré cheio, sexta-feira, noite quente... Eu estava lá, sentado, sozinho, bebendo uma cerveja no meio daquela fumaça de cigarro, daquele ar quente e viciado, misturado com todos os odores possíveis. Entre uma tragada e outra de cigarro, um gole e outro de cerveja, eu observava a fauna dançar animada. Quem dançava? Ora, o cabaré era freqüentado basicamente por operários das mais diversas áreas, motoristas de caminhão, malandros, assaltantes, vendedores de drogas, bêbados, suburbanos dos mais variados tipos e perdidos, como eu. Alguns dançavam sozinhos, mas a maioria dos caras dançava acompanhado por alguma garota. Havia também as putas velhas. Mulheres barrigudas, enrugadas, gordas e feias, transformadas pelas noites de morcego, pela bebida e muitas vezes, pelas drogas.
Eu não dançava, primeiro porque não sabia, depois porque não tinha coragem de dançar num puteiro. Sim, eu sou um cara tímido. Mas admito que muitas vezes senti vontade de pegar uma "índia" e sair dançando pelo salão feito um louco. Eu ficava só na vontade, olhando, olhando... E foi numa dessas, enquanto eu observava a mulherada dançar, que notei Patrícia. Linda, suave, deslizando entre a chinelagem, entre homens suados e bêbados. E lá estava ela, dançando animadamente, sorrindo. Bebi um outro gole de cerveja, dei uma tragada no cigarro e fiquei observando ela deslizar. Eu, encantado.
Terminei a cerveja e pedi outra enquanto esperava o melhor momento para chamar Patrícia. Esperei, esperei, até que finalmente ela ficou sozinha. Era a minha oportunidade. Você já ficou receoso em chamar uma puta para conversar? O seu coração já bateu acelerado, você já ficou nervoso, ansioso e inseguro pelo fato de querer falar com uma prostituta? Pois bem, eu fiquei assim, meu velho. Fiquei assim quando resolvi chamar Patrícia para conversar. Quase me caguei todo. Justo eu, justo eu que já tinha conversado com centenas de prostitutas. Justo eu que já havia varado madrugadas em todos os tipos de inferninhos. Justo eu, macaco velho, putanheiro. Tremi para chamar Patrícia, mas chamei. Eu tinha bom faro, Patrícia era doce e encantadora, além é claro, de ter uma bunda maravilhosa. Dessa noite em diante começamos a ter uma relação que rompeu as fronteiras do inferninho. Às vezes eu dormia em sua casa, conheci a filhinha dela, saíamos como dois namorados e desfilávamos de mãos dadas pela cidade. A relação comercial ficou de lado, o comeu pagou foi esquecido por ela. Pelo menos para mim ela não cobrava.
Bom, foi assim que eu conheci Patrícia. Agora vamos voltar para a noite em que eu conheci o cara que agora eu sei quem é realmente.
Como eu dizia, era uma sexta-feira quente e o cabaré estava completamente cheio. Eu estava bebendo uma cerveja enquanto esperava por Patrícia. Levei o copo à boca e bebi um bom gole, foi neste momento que reparei no homem que estava sentado ao meu lado, ele olhou-me e sorriu. Olhos vivos, serenos, sorriso iluminado. Ele cumprimentou-me com a cabeça, fazendo um leve balanço. Respondi da mesma maneira e então ele puxou conversa:
- Está animada a festa hoje!
- É - respondi, enquanto acendia um cigarro.
- É a primeira vez que venho aqui - continuou ele, com uma calma, uma serenidade que eu não conseguia entender de onde vinha.
- Freqüento este lugar há algum tempo - eu disse.
Ele encheu o seu copo com cerveja, deu um gole e sorriu. Eu não conseguia entender o porquê, mas me sentia bem ao lado daquele cara que eu nunca tinha visto antes. O sorriso dele era iluminado, eu me sentia reconfortado com a sua presença.
- E aí, gostou de alguma garota? - perguntei.
Ele sorriu.
- E você, você gostou de alguma? - perguntou.
- Gostei daquela loirinha ali.
- Qual, aquela com uma micro saia transparente?
- Não, a outra, a que está dançando com aquele cara com rosto de buldogue. A loirinha de calça jeans e bluzinha branca.
- Ah! Bela garota, suave e meiga. Por que você não a chama para conversar? Sinto que você gosta mesmo dela - ele disse.
Nos olhamos e bebemos mais um gole, ofereci-lhe um cigarro. Ele recusou. Levantei e fui ao banheiro. Mijei e sai. O ar, como na maioria das vezes estava pesado e rançoso. Suor, perfume barato...
Andei no meio da fauna esquivando-me. Primeiro quatro caras alinhados um ao lado do outro, bebendo cerveja e
Escrito por Emerson Wiskow às 21h43
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Nova parada
Era sempre a mesma conversa, eu já estava cansado de ouvir Rubens falar que deveríamos ir para Paris. Era o sonho dourado dele. Acordamos às 11 horas da manhã e fomos preparar o carro. Minha cabeça doía e meus dedos fediam a cigarro, tínhamos passado a noite em um inferninho.
Depois de algumas cervejas quente, o estômago vazio e muitos cigarros, o meu crânio parecia que ia rachar. Enquanto tentava dançar com Luanne o mal-estar continuava. Sentia o meu corpo quase anestesiado, estava num estado de catarse. Sentia naúseas, ânsia de vômito, tontura. No meio de tudo isso eu beijava Luanne como que se quisesse engoli-la. Algumas mulheres faziam com que eu tivesse esse desejo, o de engoli-las, devorá-las, arrancar-lhes pedaços de carne. Luanne movia sua língua dentro da minha boca com voracidade, sugava. Seu beijo era gostoso. Aquilo ajudava a passar minha naúsea, eu me equilibrava enquanto beijava e apertava a bunda de Luanne. Continuamos ali, a noite estava fraca, com pouco movimento, apenas nós dois dançávamos naquele pequeno salão circulado por mesas. A luz embotada, o ar morno, a embriaguez, tudo contribuía para uma sensação de sonho nebuloso. Era como se nos movêssemos lentamente entre nuvens e névoas. Uma espécie de arrebatamento melancólico. Carência e desespero. Uma tristeza disfarçada assoviava pelos cantos da “casa”e cobria a todos.
Luanne era uma mulher baixinha, de rosto bonito, gorda. Possuía cabelos negros, lisos e compridos. Tinha a pele branca e macia. Surpreendeu-me o seu beijo. Luanne tinha uma língua saborosa que mexia com destreza, apaixonada. Rubens, eufórico e embriagado, bebia acompanhado por duas amigas. “Amigas”, era como chamávamos as putas. Nessa noite, enquanto beijava Luanne voltei a sentir ânsia de vômito. Deixei Luanne e fui ao banheiro. Fechei a porta do banheiro, encostando-a com o pé enquanto vomitava no vaso sanitário. Estranhamente, aquele era, talvez, o banheiro de puteiro mais limpo que eu já vira. Meu estômago retorcia-se, vomitei uma gosma amarela e um pouco de sangue. Eu babava no vaso sanitário como um cão louco. Joguei um pouco de água no rosto, lavei a boca e voltei para o salão. Luanne me aguardava, logo que cheguei voltamos a nos beijar.
Enquanto Rubens encaixotava os livros para colocá-los no carro, tomei duas aspirinas e fui preparar um café. Pilhas de livros: Cortázar, Borges, Balzac, Philip Roth, Kafka... muito dos fodões estavam ali, e alguns clássicos. Como disse, os fodões da literatura universal. Servimo-nos de café.
- Como está a cabeça? - perguntou Rubens.
- Não está legal ainda, lateja...
- Você gostou mesmo da gordinha - disse Rubens.
- A italianinha beija bem, tem uma língua gostosa. Ajudou a me sentir melhor, estava com a cabeça rachando de dor.
- Percebi que você se animou com ela.
- Algumas mulheres possuem esse poder sobre mim. Então... vamos voltar para Porto Alegre...
- Queria que estivéssemos nos mudando para Paris - disse Rubens depois de beber um gole de café. Acendi um cigarro e dei uma tragada.
- Como iríamos viver lá? Não temos dinheiro nem mesmo para pagar as passagens. Não temos dinheiro para nada, não estamos trabalhando.
- Lá daríamos um jeito, em último caso poderíamos mendigar. Além do mais poderíamos ganhar algum dinheiro fazendo ilustrações. Não sei... teríamos que nos virar, o negócio é estar lá - argumentou Rubens em tom convicto.
Bebi o último gole de café e reabasteci minha xícara.
- Porto Alegre... Porto Alegre é uma província... E aqui você nunca conseguirá publicar nada, é um grupinho fechado de escritores que ficam lambendo-se uns aos outros. Veja... Paris, lá sim você teria estórias para escrever. Talvez teríamos mais sorte até mesmo com nossas histórias em quadrinhos. Aqui, nunca conseguimos nada - sentenciou Rubens.
- E você, não vai mais escrever? - perguntei.
- Não... sempre que leio Cortázar ou Borges fico intimidado. Talvez algum dia eu volte a escrever algo.
- Você não precisa escrever como eles. Escreva suas histórias... escreva do seu jeito - eu disse, depois traguei o cigarro e lancei a fumaça para o ar.
- Aí é que está. Quero escrever como eles. Você não, você escreve suas histórias, sua linha é outra - respondeu Rubens ao colocar mais café em sua xícara.
- Tenho necessidade de escrever. É uma forma de lidar com toda essa merda. Por mais difícil que seja é uma batalha boa de se lutar, é você contra você. Também fico frustrado quando leio algum autor que gosto e percebo que não consigo escrever como ele. Lembra daquela garota que disse para mim não escrever mais?... Que não era coisa para mim? Que eu deveria fazer algo que desse dinheiro?
- Lembro...
- Então... Ela nunca entenderá porque um homem escreve, principalmente se ele não ganha dinheiro com isto - afirmei.
- Ela que vá a merda! - disse Rubens com veemência.
O tempo estava fechado, nuvens cinzentas cobriam o céu, um vento suave começou a soprar e a levantar folhas, como um espírito. Tratamos logo de terminar de carregar o carro, arrumamos as caixas com pilhas de livros, poucas panelas, pouca louça e um galão de gasolina para o caso de acabar o combustível. O marcador não funcionava. No pequeno reboque do carro colocamos mais caixas com livros e amarramos dois colchões de solteiro sobre elas.
Entramos no carro e partimos, uma leve chuva começou a cair, o céu cinza cheirava a melancolia.
Escrito por Emerson Wiskow às 20h28
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Aparição Verde
Vinham andando pela madrugada, a rua deserta e escura, já meio sonolentos, os olhos ardendo e o corpo cansado. Trocavam passos lentos, frases curtas, piadas ordinárias e algumas risadas. Andavam em direção ao apartamento de um deles.
- Olhe aquilo!... - disse um dos caras.
- Parece alguém... - disse o outro cara.
- Éé... é uma pessoa...
- Está vindo pra cá...
- Cara... é uma mulher! E está pelada. A louca está pelada!...
- Porque será que ela está andando pelada no meio da rua?
- Talvez seja nossa noite de sorte! - exultou um dos caras.
A mulher continuou aproximando-se dos dois, andando sempre no meio da rua deserta. Os braços caídos ao longo do corpo, passos lentos como se estivesse em algum tipo de transe. Os dois continuaram a andar, também em passos lentos, em direção à mulher nua. Um dos caras enfiou a mão no bolso da calça e retirou um maço de cigarros. Pegou um cigarro e acendeu, deu uma longa tragada e lançou a fumaça na noite. Continuaram aproximando-se aos poucos, apreensivos, trocaram silêncio por uns 30 segundos.
- Cara... estou enxergando mal ou aquela mulher é verde?
- Ela é verde... cara, a mulher é verde... ELA É VERDE!!
A mulher continuou a aproximar-se, sempre com passos lentos e parecendo estar em transe.
- Cara, vamos dar o fora daqui... Aquilo deve ser uma assombração - disse o cara transtornado.
- Ei,... nunca vi uma assombração verde. Pra falar a verdade nunca vi uma assombração.
- E se for uma alienígena? - perguntou o outro.
- Alienígena ou não, assombração ou não, ela é muito gostosa!! Cara, olha só para aquele corpo! Olha os peitões, o tamanho daquele quadril... olha para o meio de suas pernas... QUE XOTÃO! Ela tem uma xota linda e volumosa.
A mulher nua, verde, já estava a poucos passos de distância deles, os dois continuaram a andar hesitantes em direção à mulher.
- Cara vamos dar o fora daqui!
- Calma... Vamos ver o que acontece... A quanto tempo você não dá uma? - perguntou o outro.
- Faz um bom tempo...
- Então?!! É a nossa chance. Que importância faz que seja verde?
- Cara, não sei não. Isto não é normal. Não existe mulher verde, ninguém é verde!
- Não importa, com um corpo daqueles...
A mulher parou em frente aos dois e ficou olhando-os com os olhos perdidos. Os dois ficaram ali, imóveis em frente àquela estranha mulher de pele verde. Eles arregalaram os olhos em direção ao corpo da mulher, examinaram-na como se fossem devorá-la com os olhos curiosos.
- Oi! - disse um dos caras.
A mulher sorriu e permaneceu calada. O outro cara continuou calado com uma expressão de espanto estampada no rosto, suas axilas deixavam uma grande marca de suor embaixo das mangas de sua camisa creme. A mulher continuava a sorrir.
- Ei... você pode arranjar encrenca andando nua por aí. Se quiser pode ir para nossa casa... Lá daremos algo para você vestir.
A mulher, verde e nua, gesticulou a cabeça afirmativamente. Os três andaram em direção ao apartamento de um dos caras.
- Acho que não foi uma boa idéia levar ela para o apê - disse o cara nervoso.
- Relaxa, olha só para este corpo... - disse o outro.
Chegaram, a mulher nua subia as escadas na frente dos dois homens.
- Olha só... olha só a visão do paraíso. Há quanto tempo você não via uma belezura destas?
- Ei, cara... já estou até ficando excitado com esta visão. Meu deus, que rabo... Foda-se se ela for uma alienígena ou não!
- É isso aí! Eu não te disse? Hoje os deuses olharam para nós!
- Ééé...
Chegaram ao apartamento e entraram. A mulher, nua e verde, olhou em sua volta e pela primeira vez falou algo desde que encontrou os dois.
- Vocês tem água? - perguntou ela com uma voz mansa e suave.
- Água! Claro...
- Posso tomar um banho? - perguntou a mulher.
- Banho... Claro! O banheiro fica ali - respondeu um dos caras apontando para o banheiro.
- Vocês têm banheira? Perguntou a mulher verde e nua parada em frente aos dois. Seus braços compridos pensiam ao longo do corpo estático. Os belos peitos firmes, grandes e verdes, mostravam-se suculentos. Os caras vidravam os olhos no seu corpo, escorregavam os olhares para sua volumosa buceta com pentelhos verdes.
- Temos... também temos uma banheira.
A mulher sorriu e andou em direção ao banheiro, o seu grande traseiro fazia um belo movimento enquanto ela andava. A mulher ligou a torneira, ligou o chuveiro e encheu a banheira. Os dois caras ficaram na sala esperando, bebendo cerveja e fumando. Mataram a primeira garrafa, um dos caras trouxe outra. Continuaram a beber enquanto esperavam a mulher verde. Ficaram ouvindo os sons que vinham do banheiro, som de água escorrendo, do chuveiro, da torneira. Pelo som perceberam que a banheira enchia-se de água.
- Cara, essa mulher é louca...
- Não importa, não vejo a hora de poder fodê-la.
- É isso aí... Vamos fodê-la até não poder mais...
- Ela está lavando aquele rabo para nós!
- Siimmm... Ela está lavando aquela buceta gostosa para nós.
A água continuava a escorrer da torneira, a banheira continuava a encher. A mulher entrou na banheira, deitou-se nela, submergiu o corpo e ficou apenas com a cabeça fora d’água.
- Cara ela está demorando.
- Quanto tempo faz que ela entrou no banheiro?
- Há quase uma hora...
- É muito tempo, e desde que ela entrou no banheiro não desligou a torneira e nem o chuveiro.
- Cara olha isso ali. A louca inundou o banheiro, a água está vindo para a sala. Ela está molhando tudo, está alagando o apê.
Por debaixo da porta uma grande poça d’ água formava-se e avançava pela sala. Os dois caras saltaram das pequenas poltronas e correram em direção ao banheiro. Bateram na porta preocupados.
- Ei... você está bem? - perguntou um dos caras.
- Está escorrendo água para a sala, está alagando tudo... - berrou o outro cara.
A mulher não respondeu, ouviam apenas o som de água derramando e escorrendo. Um dos caras abriu a porta, o banheiro estava completamente alagado. Jorrava água da pia, a torneira aberta no máximo, assim como o chuveiro. A banheira transbordava água. O banheiro estava inundado.
- Onde está a mulher? - gritou um dos caras.
- Onde ela está?! - berrou o outro.
- A MULHER SUMIU! A MULHER SUMIU!
- Olhei a banheira!
O outro cara olhou. Havia apenas uma grande mancha verde misturada na água. Uma mancha verde viscosa dentro da banheira. Os dois caras ficaram observando embasbacados aquela mancha verde dentro da banheira. Havia água por todos o lados e a mulher não estava mais ali. Um dos caras abriu o ralo para a água escorrer. A água escorreu para dentro do ralo, junto com a mancha verde e viscosa. Os dois ficaram estáticos, observando a mancha verde deslizar ralo adentro. Depois, voltaram para a sala e abriram outra garrafa de cerveja.
Escrito por Emerson Wiskow às 20h24
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Mulheres Más - Emerson Wiskow

Escrito por Emerson Wiskow às 20h22
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Noite negra
Bebeu o último gole. Olhou para o lado e sorriu com os olhos de louco. Olhou para a garrafa vazia, depois lançou-a longe com um grande movimento de braço. Sorriu novamente ao ouvir o som da garrafa estilhaçando-se. Era o som de vidro quebrando-se no meio da noite quente. Solidão.
Lançou jorros de vômito sobre a vegetação e sobre algumas pedras. Os olhos encheram-se de lágrimas. Tristeza. Queria estar sobre uma velha ponte medieval feita de pedras, com um rio escuro deslizando lá embaixo, misterioso, perigoso na sua calma aparente. Suicida.
Enfiou a mãos nos bolsos da calça suja, velha, puída, e dançou os dedos lá dentro numa procura cega. Tato. Procurou a carteira amassada de cigarros. Retirou-a do bolso com dificuldade, abriu e examinou com esperança. Havia poucos cigarros. Desanimou-se ainda mais. Quatro cigarros para uma noite de faltas. Acendeu um cigarro e deu uma tragada, depois arrastou o corpo cansado em direção ao centro da cidade. Lá, encontrou movimento, barulho, festa. Andou no meio da multidão suada, elétrica. Passou por uma turma de mulheres que requebravam os quadris, balançavam grandes bundas enfiadas dentro de pequenos shorts e calças coladas ao corpo. Dançavam lentamente, como se estivessem ensaiando uma dança de acasalamento, sensuais, eróticas. Os corpos suados, elas fumavam, bebiam e dançavam. Alguns vendedores gritavam, anunciavam suas cervejas, cachaças disso e daquilo. Mistura de odores, suor, fumaça de cigarro, maconha, churrasquinho, gordura, cheiro de xampu de puta. Cabelos molhados.
Continuou andando enquanto fumava, tragava e lançava fumaça ao ar. Desviava-se das pessoas com dificuldade. Andou mais e parou diante da multidão. Louco e cansado. Tossiu e desejou matar alguém. Torcia as mãos nervosamente, com força, as veias saltavam-lhe sob a pele vermelha. Parou novamente, a multidão continuava contorcendo-se à sua volta. Homens embriagados, mulheres, algumas crianças, o som explodia.
Partículas de tensão, energia, tudo vibrava como numa febre. Um estranho prazer de tirar uma vida tomava conta do seu corpo. Nunca tinha cometido um assassinato. Agora, desejava ardentemente matar. Tirar uma vida. Desejava chegar ao ponto máximo de sua ação, chegar a um êxtase que pensava poder sentir ao praticar tal ato. Chegou a deliciar-se com tais pensamentos. Ver um vida esvair-se em suas mãos, o olhar suplicante e angustiado, o desespero e terror no rosto de sua vítima. Voltou a andar, escolhendo, procurando. Sentiu seu coração bater com mais força, ansioso. Parou em uma barraca de bebidas e comprou um copo de cachaça. Bebeu um gole e com os olhos vidrados examinou o movimento das pessoas. Sabia que iria matar. Resolveu afastar-se um pouco da multidão e encontrou um homem que mijava em um muro. Colocou-se ao lado dele, e enquanto abria o zíper da calça fez um comentário banal. Mijou também. A vontade de matar continuava. Decidira que tiraria uma vida naquela noite. O primeiro homem fechou o zíper e afastou-se dizendo uma ou duas palavras. Atrás, o futuro assassino pegou uma pedra, pego-a com a mão em forma de garra, aproximou-se rapidamente e estourou na cabeça da sua vítima. O homem soltou-se, amoleceu rapidamente e caiu na calçada coberta pela penumbra. Logo seus cabelos tingiram-se de um líquido pastoso. O sangue escorreu enquanto o assassino continuava a bater-lhe na cabeça, o pescoço pendeu mole para o lado, os olhos esbugalhados não mais mexiam. Estava morto.
Limpou as mãos com folhas e pedaços de papéis, depois voltou para o meio da multidão andando calmamente. Acendeu um cigarro, tragou e foi atrás de algo para beber. As mulheres ainda rebolavam, homens passavam em sua volta, o som continuava a explodir e ele sentia-se leve e tranqüilo.
Escrito por Emerson Wiskow às 17h52
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O puteiro infestado
Já havíamos bebido bastante no bar, estávamos embriagados e sem vontade de voltar para casa. Ele era escritor e havia publicado alguns livros. Na maioria livros infantis, uma série deles. Nos conhecíamos há uns bons anos, oito ou nove, talvez dez. O cara tinha seus méritos, certa vez chegamos a dividir um apartamento com outros dois caras. Todos velhos parceiros. Acho que começou com a poesia quando ainda usava um corte de cabelo moicano. Agora estava se dando bem e publicava livros. Sim, ele ainda publica livros. Nessa época eu não pensava em escrever porra nenhuma e o máximo que eu fazia era desenhar algumas histórias em quadrinhos, e não lembro se tinha conseguido publicar alguma delas. Acho que não. O certo é que a coisa não mudou muito, a não ser pelo fato de que agora travo uma batalha comigo mesmo em relação à literatura. Sempre lutando contra esse monstro cheio de garras afiadas que me atormenta questionando-me se conseguirei ou não me tornar um escritor.
Bom, como eu ia dizendo, bebemos algumas cervejas e resolvemos esticar um pouco aquela noite. Saímos do bar e andamos sem rumo certo pela cidade, apenas vagabundeando, envoltos naquela noite bonita, agradável e quente. Enquanto caminhávamos por uma rua pouco iluminada, cercada por prédios antigos, acabamos encontrando um puteiro que ficava em um desses prédios. A fachada era discreta, como se fosse um desses clubes secretos no qual se confabulam segredos ou tramam coisas. Uma seita proibida. Batemos na porta, uma porta de madeira, alta, antiga e de pintura desbotada. Batemos e esperamos. Uma mulher entreabriu a porta, tive a sensação que ela perguntaria uma senha para podermos entrar. A mulher nos olhou parecendo nos examinar.
- Oi - disse o cara que estava comigo.
- Oi - respondeu a mulher.
- Podemos entrar?
A mulher fez um leve gesto afirmativo com a cabeça.
- Podem...
Entramos num pequeno e estreito corredor iluminado por uma meia-luz, a mulher vestida com uma curtíssima saia transparente afastou-se para o lado deixando a passagem livre para nós entrarmos e fechou a porta. Seguimos a mulher observando sua grande bunda, a saia transparente revelava uma calcinha preta enfiada entre aqueles montes de carne. Logo chegamos numa pequena sala também pouco iluminada, todo o ambiente era coberto por uma penumbra. Um homem bebia sozinho, sentado num tamborete junto ao pequeno balcão do bar. Havia quatro ou cinco garotas na casa, espalhadas pelos cantos, duas sentadas num pequeno sofá, conversando, ambas com as pernas cruzadas e vestindo pouca roupa. O cara nos olhou de soslaio e as garotas também deram um jeitinho para verem quem eram as vítimas, quem havia caído na armadilha. Ficavam ali, esperando entediadas. Tive a sensação de que eram algum tipo de feiticeiras, entocadas entre a bruma, apenas esperando a presa desavisada. E quando ela aparecia, tratavam logo de usar todos os seus poderes de sedução. Dissimuladas, iniciavam os seus rituais, dançando, circulando pelo ambiente ou simplesmente fazendo poses estudadas. Tudo para conseguirem os seus objetivos. Eu não estava nem aí para isso, o que eu queria era poder sentir, tocar, apertar uma boa, grande e gostosa bunda de mulher. Sentir a pele feminina, ouvir uma voz de mulher falando comigo, sentir seu cheiro, perfume, deixar-me levar por seus artifícios de sedução. Então estávamos ali, naquela cova escura, apenas eu e meu amigo escritor e mais quatro ou cinco mulheres vestidas com pouquíssima roupa. Mostrando pedaços de pernas, bundas e peitos, sugerindo coisas, alimentando nossas fantasias e desejos. Havia o outro cara, claro, mas ele não parecia fazer parte da história. Estava perdido em seus pensamentos, desempenhando o seu papel na trágica comédia humana. No ar pairava, denso, morno, como se quase pudéssemos tocar enquanto fingíamos ignorar, sexo, sexo e sexo. O desejo de luxúria e perdição. Mulheres prontas para abrir as pernas assim que abríssemos as carteiras. A seita secreta. Eu não pensava em me tornar um escritor. Desejava apenas me perder entre as pernas de uma mulher naquela noite quente. Então vieram duas garotas perguntar se poderiam beber conosco. Uma morena, sentou-se ao meu lado, cruzou sua bela perna e aconchegou-se ao meu peito. Bebi um gole de cerveja e traguei o cigarro. Olhei para meu amigo e percebi que ele conversava animadamente com sua garota. Bebia e apalpava os peitos dela como um garoto feliz. Algum tempo depois resolvemos irmos para o quarto, meu amigo pegou sua garota e subiu as escadas estreitas que levavam aos quartos que ficavam no andar superior. Atrás fomos eu e Mary, subi as escadas observando seu gigantesco rabo, uma bunda grande e suculenta, o paraíso em movimento, o cosmos vomitando, explodindo em energia. O futuro aspirante a escritor, com obras, livros e mais livros que talvez nunca viesse a escrever, revolvendo em seu interior enquanto desejava apenas uma boa e quente buceta.
Entramos no nosso quarto, eu e Mary. Só então, enquanto eu tirava a roupa, percebi o grande movimento que fazia lá em cima. Sons e mais sons, uma revoada, coisas que batiam sobre o forro. A garota tirou a roupa e deitou-se, abriu as pernas e mostrou-me sua buceta, depois sorriu. Deitei-me sobre ela e senti seu corpo macio, as carnes fartas e suculentas. Continuei percebendo o movimento sobre nós, não perguntei nada sobre o que seria aquilo e meti. Meti, meti e meti. A xoxota úmida, lisa, me sugava para dentro dela. A mulher chorava. Chorava e pedia para que eu não parasse de meter. Pedia para que eu a fodesse enquanto ela chorava. Era uma daquelas raras mulheres que choram enquanto fodem. De repente vi um vulto passar voando pelo quarto, continuei metendo, o vulto passou novamente.
- Você viu algo voando aqui dentro? - perguntei diminuindo o movimento.
- Devem ser os morcegos - respondeu ela calmamente.
- O que, morcegos?!
- É, a casa está infestada por morcegos. Você não ouviu esses sons? Este prédio está infestado de morcegos no sótão.
- Puta merda! Não acredito - eu disse enquanto examinava a local sem sair de cima de Mary, sem sair de dentro dela. Um momento depois uma daquelas coisas nojentas passou voando num rasante rente a nós. Pulei para o lado e Mary levantou-se procurando ver onde estava o bicho. O desgraçado havia pousado no canto do quarto, próximo a nós. Mary pegou um chinelo e foi a caça do morcego. Acertou algumas pancadas com o chinelo naquela criatura feia que guichava e movimentava freneticamente as asas escuras. Fiquei ali, completamente pelado observando Mary (também pelada) bater no morcego até conseguir matá-lo. Depois de certificar que ele estava morto, Mary pegou o animal com o chinelo e jogou-o para fora do quarto, sorriu e deitou novamente no colchão.
- Eles não fazem mal. É só cuidar para não te morderem. Venha - disse ela com naturalidade. Novamente olhei em volta, coloquei Mary de quatro e continuei a meter. Metia e metia pensando se a qualquer momento um daqueles morcegos resolveria grudar em minhas costas ou bunda. A revoada e o movimento com todos aqueles sons continuavam sobre nós até que gozamos. Depois descemos e voltamos a beber. Meu companheiro já estava esperando com sua garota. No andar de cima os morcegos continuavam tentando tomar conta do inferninho naquela noite quente.
Escrito por Emerson Wiskow às 17h48
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Escrito por Emerson Wiskow às 17h45
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Morangos e uvas
Vendi o porco, e Clara deu graças à Deus. Pudera, já estava na hora de eu dar uma boa notícia para Clara. Ela estendia algumas roupas no pequeno varal quando cheguei com um sorriso no rosto. O porco, além de feder, fazia uma sujeira desagraçada, juntava moscas e continuava magro.
Jamais conseguiríamos engordar aquele animal nojento. Clara lavou roupas como uma condenada e acabou ganhando o porco como pagamento. O negócio não era esse. Clara lavava roupas por dinheiro, e não por porcos, mas uma cliente não tinha como pagar e ofereceu o porco. Clara aceitou. Morena das boas, cativante e bonita. Percebi logo quando a vi pela primeira vez, sentada enquanto bebericava uma cerveja com outras duas mulheres. Uma delas era Sueli. Sueli ajudou, tive que pagar algumas cervejas e uma porção de batatas fritas. Sueli nos apresentou e no meio da noite eu senti os lábios e a língua de Clara. Esqueci Juliana. Não sou culpado.
Dois meses de tentativas frustradas e ninguém queria comprar o animal. Pequeno, feio e magro. Clara já se arrependera de ter aceito o porco como pagamento, pensara que conseguiria vendê-lo facilmente. Coisa que não aconteceu. Estávamos apertados, precisando de dinheiro, e então Clara aceitou o animal. Ofereceu-o para todos, colou na parede do armazém um pequeno cartaz que ela mesma fez, caprichando na propaganda. Disse-me para oferecer o porco aos meus amigos e conhecidos, para vendê-lo. Não agüentávamos mais aquele animal, e o dinheiro da venda seria bem-vindo.
Era triste ver Clara debruçada sobre o tanque, com montes de roupas encardidas e velhas para lavar. Roupas que vestiam pessoas que mal conhecíamos e que faziam o corpo de Clara doer. Terminava com dor nas costas, descadeirada, e mesmo assim sorria fácil.
Foi num sábado ensolarado que não agüentei mais, acordei ao lado de Clara, decidido a vender aquele porco. Aquela bosta de porco feio. Passaríamos a noite bebendo vinho, comendo saborosos quitutes, morangos e uvas... Eu venderia aquele porco para agradar Clara.
Levantei da cama cedo, tomando cuidado para não despertar Clara. Bebi uma xícara de café preto e saí para pegar o porco a fim de tentar vendê-lo. A manhã estava fresca e agradável, o sol brilhava prometendo um belo dia. Fui ao pequeno chiqueiro improvisado ao lado da casa, encontrei o animal fuchicando tranqüilamente com o focinho uma melancia cortada ao meio. Algumas moscas voavam ao redor, pousavam sobre a melancia e sobre a cabeça do porco. Corri atrás do animal que se esgueirava rente ao cercado até conseguir pegá-lo. Ajeitei-o com algum esforço dentro de uma caixa de madeira, o porco equilibrava-se, escorregava levemente para os lados com os olhos assustados.
Amarrei com uma corda a caixa sobre a traseira de uma velha camioneta emprestada por um amigo, entrei, dei a partida e pus-me a rodar pelo bairro. Sem saber ao certo para onde ir, fiquei algum tempo zanzando com o porco pelo bairro, a camioneta tremia, batia, parecia que iria se despedaçar a qualquer momento. Passei por uma turma de homens que conversavam em frente a um bar, parei e ofereci o porco. Mostrei o animal que adquiria um aspecto cada vez pior, a camioneta torrava por causa do calor que aumentava. O sol brilhava como uma bola de fogo louca e forte. O porco parecia tonto, com olhar morto ele fitáva-nos, baixava a cabeça e raspava o nojento fochinho no chão da pequena caixa de madeira. Logo ele estaria com sede, talvez já estivesse. “Ninguém comprará esse animal horrível”, pensei ao observá-lo. Os homens olharam-me com desconfiança e curiosidade, analizaram o porco e fizeram piadas a respeito do animal. Baixei o preço, limpei o suor que brotava em minha fonte, cuspi. De repente um velho que ouvia nossa conversa enquanto pitava um cigarro de palha aproximou-se vagarosamente. Olhou o porco, fucinho nojento, orelhas caídas, patas de besta... e fez uma oferta pelo animal. Fechei negócio, peguei o dinheiro e o velho levou o porco.
“Vendi o porco”, cheguei anunciando para Clara. Ela sorriu de satisfação, já no tanque. “Essa noite é nossa”, prometi enquanto a abraçava com ternura. Comprei o vinho, morangos e uvas para Clara.
Escrito por Emerson Wiskow às 17h38
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O amor perdoa tudo
A jogada foi boa. Nadinho deu a primeira tacada com força e as bolas espalharam-se pela mesa. Caiu uma, duas, e uma terceira insinuou-se na caçapa, lambeu a borda e caiu suave. O silêncio tomou conta do bar, cortado apenas pelo rolar da bola 5 caçapa adentro. Nadinho continuou até chegar a vez de Guilherme jogar. Guilherme olhou tentando disfarçar o espanto, molhou a garganta com um belo gole de cerveja, deslizou o giz no taco e debruçou-se sobre a mesa como se ela fosse sua amante. Logo após ele deu a sua tacada enquanto o sol escaldante queimava lá fora. Nada caiu, os olhos de Guilherme ziguezaguearam atrás das bolas coloridas até o momento delas pararem de rolar. Nadinho tragou o seu cigarro no silêncio do bar, lançou a fumaça no ar, espantou a mosca que descansava sobre a borda do seu copo de cerveja e sorveu o último gole.
- Trás outra! - gritou Nadinho ajeitando-se sobre a mesa. Valdomiro trouxe a cerveja e colocou-a sobre o balcão.
Nadinho encaçapou novamente, depois, estrategicamente colou uma bola noutra. Guilherme escorou o queixo no taco, observou a mesa com um olhar fixo, compenetrado, e depois fez a sua jogada. O cara ao lado fez uma careta e misturou mais um pouco de Coca na sua cachaça, nada caiu, e assim foi praticamente durante todo o jogo. Era a nêga, e Guilherme havia perdido. Perdera a nêga e os únicos cinqüenta reais que tinha. “Cinqüentinha”, pensou Guilherme enquanto saía do bar escondendo os olhos do sol. Tragédia não era ter perdido cinqüenta “pila” na sinuca, mas sim, ter que encarar Joana em casa. Aquilo sim seria barra, Guilherme imaginava Joana cuspindo fogo pela boca, com os olhos ameaçadores querendo engoli-lo vivo.
Guilherme deu meia volta, entrou numa ruela, chutou um vira-lata que quase o mordeu e, alguns minutos depois bateu palmas em frente a casa de Janaina. Ela apareceu, pôs a cabeça para fora da janela, seus cabelos negros e longos deslizaram pela parede. Guilherme iluminou-se com aquela visão, os cabelos de Janaina era o quê ele mais gostava nela. Certa vez Guilherme quase casou-se com Janaina por causa dos seus cabelos negros.
- Posso entrar? - perguntou Guilherme fazendo-se de acanhado.
Janaina moveu a cabeça afirmativamente e foi abrir a porta desbotada. Guilherme entrou, sentou no sofá, pegou uma almofada e colocou sobre o colo. Janaina acendeu um mata-rato, deu uma tragada e olhou para Guilherme.
- Ué, o que aconteceu para você aparecer? - perguntou Janaina.
- Preciso de cinqüenta pila - disse Guilherme sem enrolar.
- Você nunca mais apareceu e quando resolve dar as caras é para pedir dinheiro? - Tá achando que eu sou banco ou alguma idiota?
- Me quebra esse galho Janaina - pediu Guilherme com a voz mansa.
- Vai pedir para a Joana! - disse Janaina com indiferença.
Guilherme acendeu um cigarro e olhou para a porta. Janaina fumava tranqüilamente, os cabelos caíam sobre suas costas.
- Não posso, é para dar a ela.
Janaina soltou uma gargalhada.
- Você acha que eu vou te dar dinheiro para você levar para aquela mulher? Você está louco! Não mandei você me trocar por aquela bruxa.
- Por favor... perdi na sinuca o dinheiro que recebi, e Joana está esperando que eu apareça em casa com ele - disse Guilherme desolado.
- Diz a ela. Não foi você que disse que o amor perdoa tudo?
- Você sabe como é Joana, não posso aparecer e dizer que perdi o dinheiro na sinuca.
- E para mim pode? E ainda quer que eu o consiga para dá-lo a outra mulher!
- É apenas um empréstimo para mim sair dessa enrascada. Por favor, Janaina, você não vai fazer isso comigo... vai?
- Vou.
Guilherme levantou, acendeu um outro cigarro e com passos arrastados aproximou-se de Janaina, olhou-a e suavemente passou-lhe a mão nos seus cabelos. Tragou o cigarro, lançou a fumaça para cima enquanto continuava a acariciar os cabelos negros de Janaina.
- Teus cabelos são tão lindos! - disse Guilherme com a voz terna.
- Não adianta vir com esse papo.
- Você sabe que digo a verdade, sempre fui apaixonado por teu cabelo. Um dia vou fugir com você...
Janaina levantou-se da cadeira e foi ao quarto sem dizer uma palavra. Guilherme ficou esperando-a voltar enquanto terminava de fumar o cigarro. Olhou para a cortina da porta até que Janaina surgiu por detrás dela, caminhou em direção à Guilherme e estendeu-lhe a mão.
- Tome - disse Janaina mostrando-lhe o dinheiro. Guilherme pegou os cinqüenta reais da mão de Janaina, olhou para a nota e colocou-a no bolso.
- Obrigado, você salvou minha pele - agradeceu Guilherme acariciando novamente os cabelos de Janaina.
- Agora vai! - disse Janaina.
Aliviado, Guilherme vira-se e vai embora, enquanto Janaina fica pensando na frase dita por ele no passado:
“O amor perdoa tudo”.
Escrito por Emerson Wiskow às 17h35
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