 |
 |
|
|
| 15/05/2004 |
Carne humana
- Hééé... vamos sair daqui.
- Siimmm... vamos sair daqui.
- Só restou mortos.
- Apenas mortos...
- Restos de corpos por todos os lados, braços, pernas, cabeças...
- Acho que vou vomitar...
- Segure-se.
- Aahhh... acho que não vou conseguir...
- Agüente firme...
- São muitos corpos, e já estão fedendo, estou enjoado.
- Você sempre faz isto. Já deveria estar acostumado, mas você sempre acaba vomitando.
- Tenho um estômago sensível.
- Temos que comer estes corpos.
- Não agüento mais carne humana.
- Você tem que comer, não seja idiota.
- É tanto sangue, tripas e ossos... vou vomitar...
- Você é fraco.
- Aaaahhhh!!!! Bbbbllluuuu...
- Não sou um animal! Bbbllluu, gllluuuu, aahhh, meus deus... acho que vou morrer...
- Se morrer, COMO você!
Escrito por Emerson Wiskow às 22h13
[]
[envie esta mensagem]
|
|
Meu quarto
Meu quarto cheira a mofo, meus livros cheiram a mofo, eu cheiro a mofo. Poucos raios solares atrevem-se a penetrar em meu quarto. O ar do meu quarto é tão pesado, que poderia esmagar você. Você não agüentaria, é claro que não. Poucos agüentariam. Às vezes fico deitado em minha cama sebosa, suada, assistindo as aranhas caçarem moscas, para depois serem engolidas por lagartixas.
Eu enrolo manhãs, tardes e noites. Baratas me fazem companhia, ratos dormem no meu colchão, lagartixas me lambem, e eu não me importo. Afeiçoei-me pelos insetos e por todos os animais repugnantes que foram desprezados pelos humanos. Hoje sou incapaz de matar um sapo, mas posso matar um homem! Meus cabelos são compridos e despenteados, minhas olheiras são profundas e cheias de tédio, as mulheres que um dia me amaram, hoje sentem repulsa ao me verem. Meu espírito se enche de júbilo ao perceber o enjôo que causo nelas. Os vermes que devorarão meu corpo feio e fraco, serão os mesmos que farão um banquete ao devorarem o corpo de Afrodite.
Algumas vezes aventuro-me a desafiar as calçadas, todas estas pessoas são estranhas para mim.
Compro um pedaço de pão, um pouco de vinho, e volto correndo para meu quarto. As aranhas vem e me abraçam. Elas percorrem o meu corpo, e me presenteiam com suas elaboradas teias, certamente sentiram minha falta. As baratas correm desnorteadas ao meu redor, as lagartixas caminham pelas paredes com seu silêncio enigmático, os ratos escalam minhas pernas e repousam em meus ombros. Então compartilho do meu pão e do meu vinho com meus amigos.
Acendo um cigarro e volto para meus livros, espanto as traças que consomem minha literatura, mas tenho uma profunda compaixão por elas. Leio até ficar tonto, desatento, cansado, meu corpo me traí e começo a ter alucinações. Me perco entre o sonho e a realidade, me confundo com os dois. Tudo aqui parece ter vida, meu colchão velho e fedorento, minhas cadeiras cansadas, meus quadros assustados e meus livros com cheiro de tempo. Até mesmo o chão do quarto parece ter vida, sentido meus passos. Às vezes ele faz ruídos (que eu tenho certeza), querem me dizer algo.
Escrito por Emerson Wiskow às 22h12
[]
[envie esta mensagem]
|
|
O casal do puteiro
Enquanto ela foi ao banheiro aproveitei para contar o dinheiro. Magali voltou sorrindo, algumas mulheres ganham você pelo sorriso. Magali tinha o sorriso e um belo rosto. Não resisti. Cabelos curtos e pretos, do tipo esguia, pele clara e um belo rosto. Bom, isto eu já disse. Ela sorriu para mim e fechou a porta do pequeno quarto.
- São trinta reais. - cobrou-me ela, parada em minha frente. Retirei o dinheiro do bolso, fingi que contava-o pela primeira vez e então entreguei-o. Magali pegou os “trinta” e saiu novamente do quarto.
- Já volto, não fuja daí! - disse ela com um leve sorriso. O que um sorriso não faz. Fiquei encantado com a garota. Esperei novamente, eu sempre esperava. Enquanto ela não voltava eu olhava para as paredes daquele quartinho sujo, de ar pesado. Olhei para o colchão jogado no chão, o lençol encardido e desarrumado. “Bom, esta é a minha vida”, pensei.
Magali voltou e desta vez foi eu quem sorriu. É sempre bom ver uma mulher voltar. Olhei para o seu pequeno piercing cravado no nariz, uma pedrinha brilhante. Olhei para o seu corpo esguio e tive vontade de beijá-la.
- Eu queria surfar em Bali. - disse Magali enquanto baixava a calcinha. Eu a observava em silêncio, achando bela e suave aquela jovem prostituta que sonhava surfar em Bali.
O quarto deveria ter uns 2 por 2 , talvez menos, sempre fui mal em relação a medidas, mas o fato é que o quarto era realmente muito pequeno. Tinha um colchão de solteiro jogado ao chão, um cabide para pendurar as roupas, um pequeno cesto de lixo e nós dois. Uma luz muito fraca iluminava o quartinho, o que contribuía ainda mais para deixá-lo com um aspecto de decadência. Aquilo era a decadência, amenizada apenas pelo sorriso de Magali. Lá fora a noite arrastava-se morna e abafada, as águas do Guaíba pareciam descansar em leves movimentos. Os navios ancorados, alguns gigantes, adormeciam nas margens do rio. Antes, porém, os trilhos do metrô. De repente o som da música e o murmúrio que vinha de fora do quarto era cortado pelo som do metrô que atravessava a cidade. Aquela enorme serpente iluminada passava veloz, via-se as pessoas dentro dela, como fantasmas que corriam na noite abafada. O inferninho, as putas, os amores perdidos, os trilhos do metrô, o metrô, o porto, os velhos navios e o Guaíba. Porto Alegre respirava em seus vários mundos, enquanto Magali sorria para mim dentro do quartinho com ar rançoso. De dentro do pequeno quarto ouvia-se o som abafado da música que vinha do salão onde outros homens bebiam e suavam rodeados por putas. Magali pendurou a sua calcinha no cabide ao lado do colchão em silêncio. Nos mexíamos com cuidado para não bater um no outro enquanto tirávamos nossas roupas no pequeno espaço que tinha ao lado do colchão. Magali tinha apenas dezoito anos e queria surfar em Bali. Enquanto não conseguia vendia o seu corpo em um inferninho de quinta categoria em Porto Alegre.
E eu pagava.
Eu pagava para tê-la, assim como os outros homens também pagavam.
Eu pagava para comê-la naquele quartinho imundo, sobre o pequeno colchão jogado no chão. Sobre aquele lençol gasto, usado, nós transávamos enquanto eu esquecia do mundo lá fora.
- Estes colchões são um nojo, nem cama tem neste lugar. - disse ela constrangida, como que se desculpando. Esbocei um sorriso, o quarto cheirava a renúncia.
Fui para cima do colchão e abracei Magali Abracei-a e senti o seu cheiro de perfume barato. Uma mistura de tristeza e ternura tomou conta de mim enquanto a abraçava. Magali queria surfar em Bali e eu queria tê-la. Beijei-lhe a boca, senti os seus lábios junto aos meus, senti a sua língua úmida dentro da minha boca. Esfregávamos nossas línguas como que se quiséssemos engolir um ao outro, engolir a tristeza um do outro. Magali nunca vai surfar em Bali, eu sei disto. Ao lado, em um outro quartinho começamos a ouvir uma mulher gemendo alto. Ouvimos a mulher gemer e sorrimos um para o outro.
- Que mulher fiasquenta. - disse Magali sorrindo enquanto nos abraçávamos e nos lambíamos.
As mulheres gemiam alto naqueles minúsculos quartos, gemiam alto e quase nunca gozavam. Ouvíamos também os homens bufando, gemendo, e eles gozavam, gozavam quase sempre. Magali deitou, ajeitei-me entre suas pernas e meti. Então começamos a nos beijar e a arfar. Grudamos um no outro, braços, pernas e sexos, movimentando-nos freneticamente, como loucos, como desgraçados. Chupei-lhe as pequenas tetas moles. Enfiei aqueles pequenos mamilos na boca, no meio daquela penumbra abafada. De repente ouvimos um grito no quarto ao lado. A mulher gritou indignada.
“ - Você vomitou em mim!” “Por quê você saiu antes?” “Que nojo, olha só! Que nojo!”
- Desculpe, não consegui segurar. Bebi demais. - disse o cara enrolando a voz.
- Ah, me dá o papel higiênico. Que merda, olha só a cama. Por que não saiu antes para vomitar? Tinha que fazer isto enquanto estava trepando? Você sujou o meu cabelo!
- Ahh... acho que vou vomitar mais. - disse o cara. Então ouvimos o som novamente, o cara parecia estar botando as tripas para fora.
Enquanto ouvíamos aquilo ficamos parados, apenas ouvindo e sorrindo um para o outro. Meu pau continuava dentro de Magali, sentindo a coisa viscosa e úmida.
- O cara estava mal. - eu disse, voltando a fazer leves movimentos dentro de Magali.
- Por que esses caras não vêm para o quarto antes de beberem tanto? Que nojo! Ela deve ter ficado louca. - disse Magali mexendo-se suavemente. Voltamos a fazer a coisa até que gozei. Foi uma ótima transa, suspirei satisfeito, depois tirei o pau de dentro da Magali. Retirei o preservativo e joguei-o no cesto de lixo.
- Quer tomar um banho? - perguntou Magali.
- Não - respondi - vou tomar em casa.
- Espere um pouco, vou tomar um banho e já volto - disse Magali enrolando-se em uma toalha. Magali abriu a porta e saiu. Coloquei a roupa e acendi um cigarro enquanto esperava por ela. Alguém bateu na porta e perguntou se o quarto estava ocupado. Minutos depois Magali voltou, sorriu para mim e desenrolou-se da toalha. Colocou a calcinha e começou a arrumar o lençol encardido sobre a cama. Ajudei-a a esticar o lençol, como um casal. Um casal perdido dentro de um pequeno puteiro fedorento. Um casal que arrumava-se para ir a um restaurante jantar. Estendemos o lençol e Magali vestiu a roupa. Depois saímos. O casal. Passamos pelo corredor estreito com caixas de cervejas empilhadas ao fundo. Uma mulher jovem pintava a boca em frente a um grande espelho colado na parede. Outra passava vestida apenas por uma minúscula calcinha, enquanto uma morena carnuda entrava com um cliente no quarto. No salão os homens ainda bebiam sobre aquela luz morna, no meio do ar rançoso de cheiros. Magali levou-me para uma mesa, pedi uma cerveja e ficamos bebendo, como um simples casal em um bar qualquer.
Escrito por Emerson Wiskow às 22h11
[]
[envie esta mensagem]
|
|
Caixa de monstros
Caixa de monstros. Foi no bar, primeiro encontrou a mulher, não a conhecia. Deu uma rápida olhada quando ela sentou-se ao seu lado, continuou bebendo. Fingiu indiferença e acendeu um cigarro. Nota zero. Ela percebeu. A mulher fez um sinal ao garçom, ele moveu o sobrolho e dirijiu-se a ela. A mulher pediu um martini. O garçom trouxe-lhe. Ela bebeu um gole e deixou uma pequena marca de batom vermelho na borda da taça. Depois virou-se para o homem que a espiava e disse-lhe com uma voz suave e morna: “- Crê pois, meu doce bem, meu doce encanto, que té anseiam fantásticos terrores, pregados pelo ardil, pelo interesse. Só de infestos mortais na voz, na astúcia. A bem tirania está o inferno.” - Sabe quem escreveu isso? - ela perguntou.
- Não. Não tenho a mínima idéia - respondeu o homem. A mulher deu um leve sorriso superior. Ela usava um longo vestido vermelho colado ao corpo, tinha-se a impressão de ter o sol à cabeça. Seus cabelos loiros caíam sobre as costas nuas.
“- Pavorosa ilusão da Eternidade, terror dos vivos, cárcere dos mortos; d’almas vãs sonho vão, chamado inferno. Dogma funesto, detestável crença, que envenena delícias inocentes! Tais como aquelas que no céu fingem: Fúrias, Cerastes, Dragos, Centimanos. Perpétua escuridão, perpétua chama. - Bocage escreveu isso... Incrível não? - disse a mulher, parecendo ainda mais bela.
- É... Concordou com um leve aceno da cabeça.
A mulher pediu outro Martini e acendeu um cigarro, ouve um silêncio entre os dois.
- Qual o seu nome? - perguntou o homem.
A mulher sorriu novamente, retirando o cigarro dos lábios vermelhos.
- Helena - respondeu ao tombar levemente a cabeça para trás e lançar um jato de fumaça no ar - E o seu?
- Robson...
Helena bebeu um gole de Martini e retirou uma pequena caixa de madeira de dentro de sua bolsa.
- Você acredita em monstros? - perguntou Helena deslizando suavemente os dedos sobre a caixa.
- Monstros!? Robson sorriu.
- Sim, monstros... Seres bizarros, cruéis, bestas que povoam a escuridão, e que apavoram os humanos - disse Helena num tom de voz enigmático. O bar pareceu apertar-se em torno de Robson, ele olhou em sua volta e percebeu que os outros homens continuavam a beber tranqüilamente. “Uma louca de bar”, pensou consigo. Bela e louca. As pernas de Helena reluziam frescas. - Há muitos anos tenho alguns destes seres presos dentro desta pequena caixa. Esta caixa jamais poderá ser aberta, e esta será sua missão: Guardar esta caixa enquanto estiver vivo. Nunca a abra e nunca permita que ela seja aberta - disse Helena passando-lhe a pequena caixa, logo após levantou-se e partiu. Robson tentou impedi-la de partir, chamou-a enquanto Helena afastava-se tranqüilamente.
Robson observou a caixa à sua frente, analisou-a, colocou-a junto ao ouvido, sacudiu-a levemente a fim de escutar algum som que viesse de dentro da caixa. Coisas rolaram dentro da caixa e Robson teve a impressão de ouvir alguns sons estranhos que fizeram-lhe o corpo arrepiar. Bebeu o resto de sua bebida e finalmente foi embora, deixando sobre o balcão a pequena caixa de monstros.
Escrito por Emerson Wiskow às 22h08
[]
[envie esta mensagem]
|
|
Uma cena curiosa
No bar, o cara sentado à mesa ao lado batia os dentes. De tempos em tempos um calafrio o assaltava, fazendo-o tremer o corpo inteiro. Ele tentava esquentar o corpo bebendo alguma coisa, assim como eu e os outros caras. Só então percebi o silêncio que havia no bar, o cara do lado continuava a ter os seus calafrios enquanto espremia-se dentro do seu grosso casaco puído. Certamente aquele era o buraco mais desanimador da cidade, meia dúzia de gatos-pingados com ar cansado, bebendo entediados, fumando e tremendo de frio naquela noite gelada. Ali todos pareciam ser suicidas em potencial. Estavam apenas tentando relaxar um pouco. Foi quando ela entrou, unhas vermelhas, desgraçada, botas cano alto e capa de chuva. Não sorriu, acendeu um cigarro depois de sentar-se junto ao balcão. Era mulher, claro. Ar de louca, um corte de cabelo de louca, e um “que” de sensual, levemente vulgar, suburbana.
Todos espicharam os olhos em direção a ela, acompanharam os seus passos numa mistura de desejo e curiosidade. Era uma raridade, mulher naquele bar de suicidas. Pediu uma bebida, bebeu um gole, tragou o cigarro, cruzou as pernas e fungou duas vezes seguidas. Ninguém soube o quê fazer, o silêncio aumentou e naquele silêncio ouviu-se um roncar de estômago. Emborquei um gole da minha bebida, desceu queimando a garganta, enquanto eu fazia uma careta de prazer.
De súbito um som de arrastar de cadeira foi ouvido, virei o pescoço em direção ao barulho, outros também viraram. Um dos homens levantou-se. Antes, bebeu um gole, bateu o copo sobre a mesa, caminhou em direção a mulher e atracou ao seu lado, junto ao balcão. O sujeito, vestindo um grosso blusão de lã, olhos injetados e rosto inchado, assim como o resto do seu corpo, falou ao ouvido da mulher. Falou-lhe durante alguns minutos, enquanto espiava-lhe o grande traseiro esparramado sobre o tamborete.
A mulher passou a mão nos cabelos ruivos, ouviu sem mostrar interesse e continuou com uma expressão distante. Logo após deu uma tragada e suspirou profundamente. Para surpresa de todos os homens, suicidas, cansados e gelados de frio, ela pôs-se a gritar furiosamente como se tivesse um ataque de histeria. O cara deu um salto para trás e olhou-a assustado, sem saber o que fazer diante daquela situação. A mulher continuou a gritar, cada vez mais alto, um grito estridente que parecia que lhe estouraria a garganta a qualquer momento. Ficamos todos olhando aquela cena patética e absurda. A mulher levantou-se do tamborete, sempre aos berros, sapateava e puxava os cabelos com fúria enquanto gritava. Os caras olhavam-se uns aos outros, perguntando-se o que havia acontecido com a mulher. “É louca... eu apenas me ofereci para pagar-lhe uma bebida”, disse o homem de rosto inchado, afastando-se cada vez mais. A histérica continuou a gritar e a sapatear, balançando a cabeça para os lados e sacudindo os braços caídos ao longo do corpo. Então ficamos todos ali, sentados, copo na mão, bebendo, fumando e olhando aquela mulher vestida com uma capa de chuva, unhas vermelhas e botas de cano alto sapateando no mesmo lugar enquanto gritava. De repente a mulher parou de gritar, suspirou profundamente, ajeitou os cabelos e a capa de chuva, e sem olhar para os lados andou em direção a porta do bar e desapareceu.
O silêncio voltou a tomar conta do bar, os homens, cansados e gelados, continuaram a beber com um ar entediado, enquanto o cara da mesa ao lado continuava a bater os dentes naquela noite gelada.
Escrito por Emerson Wiskow às 21h42
[]
[envie esta mensagem]
|
|
Uma noite gelada
A garçonete era baixa e roliça, enormes peitos... uma mulata simpática e sorridente. Depois de alguma conversa conseguiu convencer-nos a beber ali, naquela espelunca. Tremíamos de frio e uma chuva fina caía como pequenos estilhaços de vidros. Sentamos e a garçonete trouxe a cerveja enquanto um homem se distraía numa máquina caça-níqueis. Colocava moedas e com um ar apagado observava as figuras girarem. Parecia não ganhar nada. Ficamos calados por algum tempo, apenas bebemos o silêncio daquela noite gelada. A garçonete sorriu, passou um pano sobre a mesa e puxou conversa.
- Vocês parecem desanimados - disse ela.
- Um pouco - respondeu meu amigo.
- Ora... mas agora eu estou aqui - disse a garçonete sorrindo.
Bebi um gole e olhei para a garçonete.
- Você é legal - comentei.
A chuva caía ainda mais forte, mudava de direção com o vento e respingava para onde estávamos. Nos encolhíamos ainda mais tentando resistir ao frio cortante que nos gelava os ossos. A garçonete falou mais alguma coisa, sorrindo, e então foi para o fundo do pequeno bar, onde havia algumas pilhas de engradados de cervejas. Ela passou pelo estreito corredor e então desapareceu através de uma porta coberta por uma cortina de plástico. Continuamos bebendo sob aquela luz amarelada e fraca, comentamos alguma coisa sobre a garçonete e voltamos a ficar calados. Em uma mesa próxima à nossa três caras e duas mulheres conversavam enquanto bebiam. Todos encolhidos, resistindo, numa noite horrível, num bar decadente e sujo. A garçonete, mulata, roliça e de peitos grandes voltou para nossa mesa.
- Estão melhores? - perguntou.
- Você poderia deixar-me melhor - respondi.
A garçonete debruçou-se sobre mim e abraçou-me.
- E agora, melhorou? perguntou.
- Um pouco... - respondi, depois bebi um gole de cerveja. A garçonete debruçou-se novamente sobre mim, e abraçando-me deu-me um grande beijo na boca.
- E agora? - perguntou ela sorrindo.
- Melhorou bastante - respondi.
A garçonete sorriu e afastou-se sorrindo sob os olhares espantados dos ocupantes da mesa ao lado. Uma das mulheres sorria surpreendida pela cena. Continuamos bebendo e a chuva continuou caindo enquanto nos encolhíamos de frio, numa noite horrível que sorriu.
Escrito por Emerson Wiskow às 21h41
[]
[envie esta mensagem]
|
|

Escrito por Emerson Wiskow às 21h38
[]
[envie esta mensagem]
|
|
Val
É, essa eu não sabia como fazer. Muitas vezes não sei. Fiquei o tempo todo sentado ali, fumando e bebendo. Bebendo e fumando. Matando o tempo e morrendo. Em volta o mesmo circo de sempre, o eterno retorno... O cara morreu louco, talvez esse seja o preço. O preço da lucidez talvez se pague com a loucura e a solidão. Jogo duro.
Ela levantou e foi ao banheiro, passou ao meu lado, belas pernas, uma bunda gigante. Claro, era tudo o que eu queria. Um homem poderia querer outra coisa? Mas como eu ia dizendo, eu não sabia como fazer, então limitei-me a continuar fumando e bebendo. Nada de mais. Fracasso. Fracassado. Pedi outra cerveja e esperei. Esperei por um milagre, esperei que ela voltasse do banheiro, esperei por noites melhores.
O cara que rondava entre as mesas trouxe-me outra cerveja, bebi um gole, traguei o cigarro e continuei a esperar. Foi quando ela voltou do banheiro. Olhei primeiro para os quadris, depois para o rosto, depois para a região entre suas pernas. Ela veio em minha direção, parou em minha frente e soprou em meu ouvido, depois pediu para sentar. Concordei, ela sentou, pediu um cigarro e cruzou as pernas. As coxas saltaram aos meus olhos, ela notou e sorriu.
- E então? - ela perguntou.
Eu não soube o que responder. Sorri e bebi um gole de cerveja.
- Qual o seu nome? - ela perguntou. Eu disse-lhe o meu nome e pedi um copo para ela. O cara trouxe o copo e a serviu. Ela agradeceu, bebeu um gole e olhou-me.
- E o seu nome, qual é?... - perguntei.
- Val - ela respondeu.
- Val... repeti balançando levemente a cabeça. Bebi um outro gole, dei uma última tragada e apaguei o cigarro.
- O quê você faz da vida? - ela perguntou.
- Nada.
- Nada? ...
- Nada.
- Eu percebi você me olhando - ela disse com um leve sorriso malicioso.
- É... não pude evitar - eu disse, e a Val sorriu novamente. Olhei para o decote do seu vestido e bebi um bom gole. Ela percebeu. Ficamos por algum tempo em silêncio. Ficamos os dois ali, calados, bebendo a cerveja.
- Quero transar com você, Val - eu disse.
- O que você está pensando que eu sou? - disse ela com uma expressão zangada.
- Uma mulher - respondi.
- É claro que sou uma mulher, mas não o tipo de mulher que você deve estar acostumado.
- É claro que não é, Val. Você é diferente...
- Olha, pensei que poderíamos conversar um pouco... - disse ela.
- E podemos...
- Então seja mais educado. Não gosto de homens que não saibam respeitar uma mulher.
- Me desculpe, Val, não quis ofendê-la. Você é muito atraente, Val. Tem um belo corpo, um corpo capaz de enlouquecer qualquer homem.
- Você não é muito bom com as mulheres, não é?
- Não.
- Olha... eu poderia te ensinar umas coisinhas - disse ela.
- Seria ótimo, Val.
- Por quê você não foi falar comigo na mesa em que eu estava? - perguntou ela.
- Sou um covarde, não tenho coragem.
- Para falar aquela coisa você teve coragem.
- É...
- Você parece meio idiota.
- É, acho que sou.
- Cara, estou perdendo o meu tempo com você.
- Aposto que você já perdeu muito tempo da sua vida com outros homens. Quantos foram, Val? O que eles lhe ofereceram? Flores, dinheiro, carros, um jantar, amor, casamento? Ou você queria apenas uma boa trepada?
- Você é um animal... um animal nojento e fracassado.
- Val... vamos sair daqui e dar uma boa trepada.
- VÁ PARA PUTA QUE PARIU!! - gritou ela levantando-se da cadeira para se afastar de mim.
Escrito por Emerson Wiskow às 21h33
[]
[envie esta mensagem]
|
[ ver mensagens anteriores ]
|
|
|
|
|
|
|
|

|