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| 04/05/2004 |
Invasão
“Eles virão?” - perguntou o cara ao lado.
“É claro que virão”
“Você já os viu?” - continuou a perguntar o cara.
“Não, mas parece que são grandes e feios, além de nojentos. Dizem que são verdes”.
“Eles irão nos devorar” - disse o cara.
“Não, eles apenas bebem o nosso sangue”.
“Dizem que eles lançam raios fulminantes e estão avançando rapidamente. Nada consegue detê-los”- disse o cara.
“Não esperávamos, não estávamos preparados para eles”.
“Eles vieram mesmo de lá?”
“Parece que sim...”
“Foi o cara do rádio que alertou a cidade”
“É...”
“Quando eles aparecerem, o quê vamos fazer?” - perguntou o cara com uma expressão nervosa.
“Ora, vamos atirar entre seus olhos”
“E se eles não tiverem olhos?”
“Bom... acho que estaremos perdidos”
Escrito por Emerson Wiskow às 16h54
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A chinesa e o suicida fracassado
O telefone tocou pela primeira vez naquela noite. Atendi. Era engano. Apesar de estarmos na primavera, fazia uma noite terrivelmente quente e abafada. Os loucos e os imbecis estavam a solta por toda a cidade. Voltei para onde estava e acendi um cigarro. Espiei lá fora. Tudo parecia quieto, calmo, abandonado. O céu estava limpo, com aqueles olhinhos piscando, piscando...
Uma chinesa enfiada em um vestido vermelho colado ao corpo, pés minúsculos, de boneca, com cabelos negros e submissa ao extremo. A chinesa, perdida aqui, dentro deste forno em forma de sala e quarto, também acendeu um cigarro, tragou e lançou a fumaça ao ar. Depois mirou-me com os olhos negros e apertados.
- Você vai escrever sobre isso? - perguntou com o cigarro entre os dedos.
- Talvez - respondi enquanto contava o dinheiro.
- Então é assim que os escritores fazem? Pensei que eles inventavam histórias... que tudo fosse ficção. Você simplesmente vai escrever sobre esta noite quente, e sobre mim. É por isso que me escolheu? Uma chinesa...
- Talvez eu não escreva nada sobre essa noite - respondi ao pagar a chinesa de vestido vermelho e pés minúsculos. Ela pegou o dinheiro, colocou as sandálias e levantou-se, acho que tinha 1,60 de altura, isso com as sandálias de salto alto. A chinesa andou suavemente em direção à janela, o vestido vermelho colado ao corpo agarrava-lhe a cintura, parou diante da janela e olhou o céu.
- Bom... tenho que ir. Quando quiser, me ligue - ela disse.
- Ligarei. Abri a porta e a chinesa se foi, afastando-se pelo corredor até transformar-se num borrão vermelho entre as paredes mostarda do corredor, e então sobrou apenas o som seco de seus saltos chocando-se no piso.
Os olhinhos continuavam piscando lá em cima quando o telefone tocou pela segunda vez naquela noite quente. Peguei o telefone e espiei a noite novamente.
- Alô...
- Cara, aquela história do gás funciona realmente? - perguntou o cara do outro lado da linha.
- Que gás? - perguntei.
- Do gás de cozinha... para se suicidar. Acho que vou fazer isso, me suicidar com o gás de cozinha.
- O quê aconteceu? - perguntei.
- Tudo está horrível. Estou sozinho aqui, e essa noite abafada... Parece que nada dá certo. - lamentou-se o cara com uma voz cavernosa.
- É apenas mais uma noite ruim - eu disse.
- Porque você não faz o mesmo? Suicídio...
- Vou pensar. Você vai tentar? - perguntei.
- O quê?
- O gás...
- Ah, vou... - o cara respondeu antes de desligar.
Algum tempo depois o telefone tocou pela terceira vez. A noite continuava arrastando-se, saí do banheiro e atendi. Ouvi uma gargalhada do outro lado da linha. Era o cara novamente.
- Cara, você não vai acreditar. Liguei o gás, abri os bicos do fogão e fiquei deitado... esperando. No início senti o cheiro de gás, mas uma hora depois eu ainda estava vivo. Não consegui nem perder os sentidos, então achei que estava demorando demais e fui ver havia acontecido. Chequei o gás e descobri que tinha terminado. Eu estava sem gás de cozinha.
- Puta merda... isso que eu chamo de azar - eu disse.
- Cara, só comigo para acontecer uma coisa desta. Bom... agora até perdi a vontade de me suicidar. Vamos beber uma cerveja amanhã?
- Vamos.
Escrito por Emerson Wiskow às 16h53
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O anjo Gabriel e os bichos de pés
Pegou a agulha e enfiou no pé. Cavocou até conseguir tirar o bicho-de-pé que o incomodava com uma coceira. Era o quarto que retirava. Quarto e último. Depois esfregou o local com os dedos e cheirou.
- Ah, você é um porco Gabriel - disse Rico. Gabriel soltou um sorriso e apontou para o pé, mostrando os buracos avermelhados. Um líquido viscoso brotava dos locais de onde Gabriel retirara os bichos.
- Pelo menos retirei esses filhos da puta que estavam acabando com meus pés. Não conseguia nem andar direito por causa dessas porras - exclamou Gabriel abaixando os pés, depois cheirando novamente os dedos da mão.
- Não sei como um cara com nome de anjo pode ser assim tão porco - disse Rico com uma expressão de reprovação. Gabriel soltou uma sonora risada de louco.
- O que tem a ver o meu nome de anjo com meus modos. E além do mais, quem disse que os anjos não são como eu? Aposto que eles também retiram seus bichos-de-pé.
- Anjos não possuem bichos-de-pé, seu idiota - disse Rico.
- Como você sabe? Acho que eles têm bicho-de-pé e ainda tiram meleca do nariz com os dedos. E depois comem. Isso mesmo, comem - afirmou Gabriel. Logo após levantou-se e arrastou-se até a geladeira, pegou uma lata de cerveja e abriu - Quer uma? - perguntou mostrando a lata.
- Quero.
Gabriel pegou outra lata de cerveja e jogou-a para Rico. Bebeu um grande gole deixando escorrer um pouco pelo canto da boca. Limpou com dorso da mão e arrotou. Rico abriu sua latinha e bebeu um gole. Gabriel pegou mais uma lata da geladeira e foi sentar-se com as duas latas. Colocou uma ao seu lado e continuou bebendo a outra. Acendeu um cigarro, apagou o palito de fósforo com um grande sopro e jogou-o no chão. Rico olhou com reprovação e bebeu um outro gole.
- Ei, acho que você tem razão. Os anjos não tiram bichos-de-pé. Não retiram bichos-de-pé e não limpam a meleca do nariz com os dedos para depois comê-la - disse Gabriel depois de beber outro grande gole e secando a primeira latinha. Arrotou, amassou a lata e jogou-a no chão.
- Você está transformando esta casa num lixão - advertiu Rico. Gabriel ignorou e abriu a outra lata, o cigarro pendia de seus lábios enquanto uma fina linha de fumaça elevava-se.
- Eles não fazem isso porquê simplesmente não existem - berrou Gabriel soltando uma gargalhada - Eles não existem, seu idiota! Os anjos não existem assim como toda mulher com nome de Kelly tem tendência a ser puta! - berrou Gabriel sempre bebendo grandes goles de cerveja.
- Oh, tenho pena de você, Gabriel, muita pena. Os anjos existem e você será castigado se não pedir perdão por dizer essas coisas - disse Rico com uma voz embargada. Rico bebeu um pequeno gole de sua cerveja. Gabriel secou a segunda latinha, amassou-a e depois a jogou no chão. Buscou mais duas latinhas, abriu a primeira da segunda leva e sentou-se novamente. Bebeu um gole, olhou para o vazio e resmungou:
- Foda-se seus anjos. Foda-se suas boas maneiras e todas as Kellys do mundo não passam de umas putas. Porcas fodedeiras!
- IMUNDO! BLASFEMEADOR! COMO OUSA FALAR DOS ANJOS?! COMO OUSA FALAR DAS KELLYS?!
- Cale a boca, seu imbecil! Anjos são porcos! Mulheres com nome de Kelly não passam de putinhas chupadoras! - exclamou Gabriel atirado no sofá. Os olhos de Rico saltavam como duas bolas flamejantes, as veias inchavam em sua fronte. Rico saltou da poltrona e apertando a latinha de cerveja na mão deixou que o líquido derramasse e escorresse pelo chão da pequena sala.
- Você não sabe o que diz. Anjos existem e as mulheres com nome de Kelly são pequenos anjos perdidos - disse Rico com os olhos úmidos.
Gabriel deu um sorriso sarcástico e tragou o cigarro. Aquilo fez o sangue de Rico ferver. Rico pegou uma barra de ferro e saltou sobre Gabriel. Gabriel levantou as mãos pondo-as em frente ao rosto para proteger-se do golpe. O primeiro quebrou-lhe o pulso. Gabriel soltou um grito de dor. Rico parecia estar transformado, possuído por um demônio. Rico era uma fera. Gabriel gemia quando recebeu o segundo golpe, dessa vez foi atingido ao lado da cabeça. Rico continuou a bater-lhe, desferindo golpes na cabeça. Um, dois, três, quatro golpes, todos com força e fúria. Gabriel já tinha o corpo tombado sobre o sofá, a cabeça pendia para o lado, o crânio esmigalhado era uma massa disforme e tingida de sangue e miolos. Rico parou de bater com a barra de ferro e chorando jogou-se de joelhos aos pés inertes de Gabriel. Soluçando com agonia murmurou:
Gabriel... Você é um anjo. E anjos existem.
Escrito por Emerson Wiskow às 16h52
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Vizinhos de quarto
Não lembro bem como aconteceu a coisa, foi logo na primeira noite. Tudo começou com uma grande gritaria no quarto ao lado. “Bom, pelo menos alguém está se divertindo”, pensei. Virei para o lado e tentei dormir, minutos depois ouvi mais barulho. Algo que parecia ser um copo acabara de se estilhaçar na parede, bem ao lado da minha cama. Depois, mais gritos, palavrões, e o som de alguém sendo jogado contra parede, seguido de umas duas ou três pancadas secas (que deduzi serem socos desferidos em uma cabeça). Era uma mulher que gritava e pelo jeito, levava a maior surra. Logo após a coisa acalmou-se e então finalmente consegui dormir.
No dia seguinte cruzei por uma bonita mulata carnuda no corredor do prédio, ela olhou-me com o canto dos olhos e seguiu de cabeça baixa. Girei o pescoço para olhá-la quando passou por mim e senti o lastro do perfume que ela havia deixado atrás de si. Percebi logo que era a vizinha do quarto ao lado. Intuição. Intuição, e claro, um roxo no seu braço esquerdo também ajudou-me a perceber. No rosto, nada de marcas.
À noite, novamente, no meio da madrugada acordei com o mesmo pandemônio no quarto ao lado. Gritos, coisas quebradas e pancadaria. A mulata levava porrada. Levava porrada e gritava: “Eu vou continuar...” “Eu não vou parar...”, a mulher não baixava a cabeça enquanto apanhava. Bom, cheguei a pensar em ir ao quarto ao lado e dar uma de protetor das pobres damas indefesas, mas eu não sabia se se tratava de uma dama, então... coloquei o travesseiro sobre a cabeça e tentei dormir. Assim seguiu-se por uma semana, gritos, pancadaria, coisas quebradas, e às vezes ainda havia os mosquitos enlouquecedores. “Bons vizinhos”, um dia cheguei a ir até o quarto ao lado para reclamar, mas acabei desistindo, pois no momento em que ia bater na porta tudo ficou silencioso. Alguns dias depois encontrei novamente a mulata, desta vez foi na entrada do prédio, trocamos algumas palavras e então ela acabou me convidando para ir ao seu apartamento. Aceitei, logo após me certificar que o “boxer” estava fora. Foi aí que a mulata começou a falar, falar e falar. Reclamou o tempo todo do tal marido, reclamava que ele não a compreendia, que era burro e insensível. Ela, ao contrário, era uma artista sensível, e que não podia recusar uma grande oferta de trabalho, uma oportunidade que poderia mudar sua vida. O marido a impedia de aceitar a proposta, e não queria mais que ela dançasse em uma boate. Essa era a causa daquele inferno noturno.
- É um homem insensível - disse ela.
- É, infelizmente alguns homens são assim - eu disse concordando.
- Ele me conheceu lá - disse a mulata. - Agora não quer mais que eu dance. Adoro dançar, adoro aquelas luzes.
- Alguns homens são assim. Você merece coisa melhor que ele - eu disse.
- Agora ele não quer que eu tire as fotos. É apenas um trabalho artístico, nu artístico... entende? Não são fotos para uma grande revista, mas é um começo - disse a mulata enquanto tragava o seu cigarro.
- Você tem um belo corpo, Denise. Um corpo capaz de enlouquecer qualquer homem. Merece ser fotografado, vai ser um sucesso.
- Você acha mesmo? - perguntou ela sorrindo.
- Claro, é a mais pura verdade - afirmei. - Você me consegue um cigarro, Denise?
- Claro, você é tão legal - ela disse.
- Você também...
- O que você acha que devo fazer? - perguntou ela.
- Deve tirar as fotos. Tirar as fotos e continuar a dançar, e dar o fora. Ele não é para você.
Denise olhou-me, sorriu e beijou-me. Ficamos ali, os dois, durante algum tempo. Depois me vesti e fui embora. No meio da noite fiquei esperando a pancadaria recomeçar. A noite passou calma e suave, sem gritos, coisas quebradas e pancadaria. No dia seguinte soube que Denise havia feito sua mala e dado o fora, deixando o seu “marido” para trás.
Escrito por Emerson Wiskow às 16h51
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